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segunda-feira, 24 de março de 2014

23. O TOC de João

João poderia ser um adulto normal se na sua infância não tivesse desenvolvido TOC. Ele toma no mínimo seis banhos por dia, sem esponja, apenas com sabonete, pois tem medo dos micro-organismos que crescem nela. Passa o sabonete puro na pele, duas três rodadas no mesmo banho. Nunca deixa louça suja na pia e sua empregada tem que lavar a casa e passar aspirador de pó todos os dias, nunca espanador. Só come a comida feita na hora e em casa, pois desconfia sempre da higiene dos restaurantes e lanchonetes. Quando não está usando lenços para pegar nas coisas, as mãos estão com luvas. Até ao cumprimentar evita o toque direto, um abraço é um sacrifício e algo raro. Sempre leva um pequeno frasco de álcool gel em sua maleta.
Ele é o advogado que mais gasta com o serviço de limpeza do escritório. Mas seu chefe nem reclama, sabe que é o que mais rende para a empresa. João é um ótimo profissional. Seus clientes o adoram apesar do seu jeitinho peculiar. O juiz Hernandez já se acostumou com o advogado que pega algumas provas com uma pinça, mesmo às vezes sendo desnecessário. Apesar de já ter passado por situações desagradáveis ele nunca se preocupou em procurar a ajuda de um psicólogo, já estava acostumado.
Sua vida amorosa sempre foi um desastre. Até os trinta e quatro anos três namoradas, a última foi a que durou mais tempo, dois meses. Nenhuma conseguiu conviver com as manias de João. Todo o cuidado que tinha com o contato com as outras pessoas, tinha com as namoradas. Ele conseguiu ato de usar antisséptico bucal depois de um beijo e muitas vezes na frente delas. Sua situação começou a tomar um ritmo diferente quando Samanta Temaraque, tenente da polícia federal, apareceu em sua vida. Eles se conheceram a partir de um caso que ela estava investigando e um dos clientes dele estava envolvido como suspeito e João conseguiu provar a inocência dele.
Samanta acabou se interessando por aquele estranho advogado e ele por ela. No começo da relação as manias ainda imperavam. Mas ele percebeu que essa era diferente das outras, estava sentindo algo que o fez querer mudar. Começou a frequentar um psicólogo, o progresso foi lento, mas teve um grande avanço. João não usa mais antisséptico depois do beijo, usa apenas o lenço de vez em quando e as luvas foram jogadas fora. Escolheu um restaurante para frequentar com Samanta, e claro sempre vai até a cozinha conferir e fiscalizar o preparo dos seus pratos. Ainda toma vários banhos por dia, apena com sabonete. Ela não implica com ele, sabe que seu comportamento não é de propósito, não é culpa dele. Os dois decidiram se casar. A cerimônia foi realizada sete meses depois de terem se conhecido. Nasceu Leonardo quatro anos depois. Samanta não deixa o marido dar banho no bebê. Toda vez que ele fez isso quase matou o menino esfregando sabonete no rosto dele.

22. O urucum que era maçã



Comprei algumas maçãs no mercado. Gosto mais daquelas amarelas, nem verdes nem maduras demais. Enquanto comia uma delas, eu olhava para o quintal pela janela e tive uma ideia. Nós temos fruteiras de diversas espécies, por que não ter uma de maçã? Assim que terminei de comer retirei quatro sementes, peguei um copo descartável e fui para o quintal. A terra que estava em volta do pé de banana era escura, tinha a aparência de ser mais fértil, então abaixei e enchi o copo com ela, e fui até a torneira e molhei um pouquinho. Com um graveto fino abri quatro buraquinhos e coloquei uma semente em cada e fechei. Deixei o copo encima de um tijolo perto das bananeiras.
Duas semanas depois três haviam nascido, mas o último não quis aparecer. Com um mês havia uma plantinha, meu pesinho de maçã. Quando ela atingiu cerca de dez centímetros comecei a estranhar as folhas. Era diferente, não parecia com as de maçã. Contei para minha mãe e ela me disse a suspeita que acabou se confirmando. Alguns dias antes de eu plantar as sementes no copo, ela tinha jogado sementes de urucum, já usadas, no pé da bananeira quando estava lavando louças. Ela até desconfiou quando foi passar a enxada nos pesinhos que nasceram em volta das bananas, e viu que eram parecidos com minha macieira. Fui conferir e constatei. Era verdade. A maçã era urucum. Ai, ai! Bom demais pra ser verdade. Nós com uma fruteira dessas em casa. Mas eu ia gostar dela, mesmo que não pudesse dar frutos. Até hoje, depois de ter mudado de cidade, pergunto dela pra minha mãe quando falamos pelo telefone.
Passaram-se quatro anos e o urucum que era maçã cresceu cerca de um metro por ano. Cada safra rende uma sacada. Agora temos corante para dar e vender, vindo de um único pé. Minha mãe plantou a muda lá na chácara, pois tinha mais espaço, no quintal não cabia mais.