Devo ter dormido no
máximo quatro horas essa noite. Levanto quase sem enxergar onde
estou indo. Ponho a água do café para esquentar enquanto tomo
banho. Banho de gato claro, pois o tempo é curto. E a calça
novamente me dá trabalho para entrar. Café tomado, roupa vestida,
fones em seus devidos lugares; verifico três vezes se não estou
esquecendo de alguma coisa antes de fechar a porta e sair. Ando
apressadamente na alameda até chegar a margem da avenida LO4 e paro,
há muitos carros na pista. “Droga vou acabar me atrasando desse
jeito”. Passa carro, e mais carro, mais carro. Surge uma brecha,
mas um bendito motoqueiro se mete nela. Olho pro relógio, os minutos
adiantados que eu tinha não valem mais nada. Finalmente uma vaga,
mas tenho que correr e por um tris não sou atropelada. Atravesso o
canteiro e a beira da outra pista, mais uma espera, mas dessa vez é
mais rápida.
Passo por alamedas
que parecem desertas. Uma obra aqui outra ali, os pedreiros gritam lá
de cima. Como sempre, com meus fones finjo que não escutei, não dou
atenção mesmo. Uma ambulância do SAMU passa apressada com sua
sirene, naquelas proximidades fica a UPA (Unidade de Pronto
Atendimento) Norte. Consigo passar a metade da 103 Norte, incluindo a
avenida LO2. Passo em uma estreita rua com duas vias. Vejo a hora e
ainda está em tempo.
Chego ao ponto da
Galeria Bela Palma. Está cheio como sempre, queria pelo menos um
espacinho pra sentar, minhas pernas doem. Escuto algumas pessoas
reclamando, mas não consigo entender. Cinco minutos e nada de
ônibus, poderia ser o Eixão ou 18 que pra mim estava bom. Mais
cinco minutos. É estranho, pois nesse horário teria passado pelo
menos 3 Eixões e mais alguns de outras linhas. Totaliza 20 minutos e
já estou inquieta, com o fone tento prestar atenção no os outros
falam, mas não consigo, então desligo a música. Ouço algo nada
agradável: hoje não teria ônibus.
É nesse momento que
começo a passar mal. Não posso chegar atrasada no trabalho, meu
gerente é muito rígido e não aceita desculpas. Lembro-me das
contas a pagar, dos remédios pra ansiedade, não posso perder
emprego, não posso. Como farei para chegar lá? A sede fica na 1104
Sul. Preciso arranjar uma carona. Muitas pessoas estão falando ao
mesmo tempo, estou ficando com dor de cabeça; alguns poucos retornam
para suas casas. Não conheço ninguém ali, da empresa sou a única
que mora na região norte, não tem como pegar carona com meus
colegas. Minha única amiga lá que talvez fizesse esse favor, se
mudou para o Rio Grande do Norte há seis meses. Não tenho opção,
ligo para meu gerente e explico a situação, ele me diz que o
problema não é dele e que eu que vire. Desligo com lágrimas
brotando, tento me esconder para não ser vista naquele estado e
começo a tremer. Mas alguém me viu, uma garota de talvez uns 20
anos, ela traz pra mim um copo de água de coco. Tento negar, mas com
sua insistência acabo aceitando. Ela explica que é secretária de
um advogado na 904 sul. O namorado iria buscá-la de carro, então me
ofereceu carona. Prontamente aceito, apesar de achar perigoso por não
conhecê-los, é a única opção.
Em quinze minutos
ele chega, já havia mais duas pessoas. Pelo que consegui entender
são colegas de trabalho dele, que também ficaram sem ônibus. Eu
fico no banco de trás. Descemos a Teotônio, paramos na 503 sul,
pois era ali que o cara trabalhava e os outros dois desceram.
Continuamos, agora na NS2 e passamos direto para a 1104, preferiram
me deixar primeiro, achei melhor. Agradeci tanto a eles.
Entrei como uma bala
no escritório, não estava a fim de ouvir reclamações. Segundo o
noticiário que estava tocando no rádio do carro, o motivo da
paralisação dos ônibus é a greve dos motoristas. Somente com
tempo pude me recuperar e pensar melhor sobre o assunto, não é
somente eu insatisfeita com as condições de trabalho. Cerca de
algumas horas depois, o presidente da empresa informou que aqueles
que se transportavam com o ônibus, naquele dia não seriam
penalizados pelo atraso ou o não comparecimento.
Esta recebeu 10 na aula de Estética do professor Fred Salomé.