Todo ano eu passo o verão na casa do meu avô Bile, o pai da minha
mãe. Já tem cinco anos que a minha avó Margarida morreu. Na época
eu tinha 6 anos, minha mãe não deixou eu ir, na verdade não me
disse o que tinha acontecido. Só descobri três meses depois quando
minha mãe tentou me impedir de passar as férias no sítio.
Hoje temos apenas meu avô, o Luiz e a Adriana, filhos dos ajudantes
do meu avô, e eu. Todo verão inventamos novas brincadeiras. Ano
passado tivemos competição de contação de histórias de terror,
que foi vencida todas as noites pelo Bile. Esse ano ele teve a ideia
de fazer uma caça ao tesouro. As pistas estariam espalhadas pelo
sítio em qualquer lugar. Por segurança a brincadeira só era válida
durante o dia para não nos perdermos.
As regras foram passadas no primeiro dia à noite. Diferentes objetos
deveriam ser encontrados e juntamente co eles estariam as pistas do
próximo objeto. Adriana perguntou quando e como começaria o jogo.
__ Calma. Amanhã vocês vão saber. Agora vou contar a história do
dromedário que queria ser um camelo...
No outro dia quando acordamos tinha um bilhete na mesinha de
cabeceira. Fiquei super curiosa e o peguei para ler. “Limpo aquilo
que consome todos os dias. Aquele branquinho, pequeno que vem dentro
de uma casca amarela e levinha. Ele tem um casamento perfeito com um
sujeito que ora está listrado ora está vermelho. Quem sou eu?”
__ Caramba! O avô pegou pesado.
Comecei a procurar em todos os lugares sem ao menos saber o
significado do enigma. Revirei o meu quarto e Bile chegou no momento
em eu jogava as roupas do baú encima da cama.
__ O que está fazendo garotinha?
__ Estou procurando o que está no bilhete. Ainda não sei o que é,
mas vai que encontro mesmo assim.
__ Que ânimo. Antes de escovar os dentes, tomar o café. Vamos fazer
assim: você escova, come, arruma essa bagunça, aí depois pode
explorar o sítio.
__ Ah não! Vô.
__ Anda mocinha!
Depois de todos tomarmos café da manhã, partirmos para nossa
aventura do dia. Essa parada serviu para eu pensar melhor sobre a
pista e acabei descobrindo o que é. A coisa branca é o arroz que
casa com feijão. O que limpa o arroz é o pilão. Fui correndo para
o barracão onde são guardadas as sementes, pois lá tinha um, mas
não achei nada. Sorte que lembrei do pilão que fica perto das
bananeiras, que é movido à água. Procurei bastante até encontrar
um envelope em um saquinho, escondido embaixo de uma pedra perto do
pilão. Abri o saco e o envelope, tinha uma moeda grande prateada,
uma moeda antiga datada de 1876. Fiquei atenta à próxima pista.
“Algum maluco já fez sorvete de mim. Muitos acham estranho. Minha
primavera é inverno. Estou no norte, nordeste e centro-oeste. Posso
ser simples e às vezes arisco. Muitos gostam de mim, mas muitos
também não me suportam, enjoam ao sentir meu cheiro. Quem sou eu?”
Essa foi muito fácil. Obvio que é o pequi. O próximo objeto e a
próxima pista devem estar no pequizeiro, o problema é saber qual.
Temos um pomar deles. Ah! Já sei. Meus avós escreveram as iniciais
deles em um dos pequizeiros e atrás dele eu fui. No pomar tinham
cerca de trinta pés de pequi, alguns eram diferentes seus galhos
pareciam cordas penduras. Andei bastante até encontrar um B e um M
entalhados em um tronco, e lá estava um saquinho com outra moeda
(esta era de ouro de 1892) e a próxima pista.
__ Gabriela vem me ajudar no almoço. __ Dona Joana gritou da janela
da cozinha. Ela é a mãe do Luiz e da Adriana.
__ Já vou. __ Seria bom dá um descanso e fui ajudá-la.
Depois do almoço nós três voltamos para a aventura. Cada um foi
desvendar o enigma dos bilhetes. No meu estava escrito assim: “Faço
bem e às vezes faço mal. Pintou sujeira, estou lá. Na maioria das
vezes sou duas caras. Quem sou eu?” O vovô dessa vez facilitou as
coisas, a peça do enigma é uma enxada. Como não saberia, se foi a
coisa que me atormentou por muito tempo. Fui até o quarto das
ferramentas e procurei enxada por enxada e encontrei em uma que
estava encostada atrás da porta. Uma moeda de bronze de 1746 e outro
bilhete. “Pena que a brincadeira acabou, mas o tempo está rolando
tic tac tic tac.” Fui correndo atrás de todos os relógios da
casa, parece que o Bile fez a mesma coisa com os outros, pois nos
encontramos diversas vezes correndo pela casa. Encontrei o último
objeto atrás do relógio do meu quarto, uma moeda de prata de 1627 e
um bilhete diferente. “Espero que tenha tido uma grande aventura.
Nos próximos dias terão boas surpresas. Te espero no lugar de
sempre.” Fiquei super curiosa, tive que esperar até a noite.
Em volta da fogueira todos mostraram suas conquistas, eu minhas
moedas, Luiz as figurinhas antigas e a Adriana as joias da minha avó.
Bile disse que nós poderíamos ficar com os objetos, que eles valiam
muito, mas só poderíamos usar quando fossemos mais velhos.
Terminamos a noite imaginando o que o vovô estava aprontando para os
dias seguintes.

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