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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

43. Paralisação

Devo ter dormido no máximo quatro horas essa noite. Levanto quase sem enxergar onde estou indo. Ponho a água do café para esquentar enquanto tomo banho. Banho de gato claro, pois o tempo é curto. E a calça novamente me dá trabalho para entrar. Café tomado, roupa vestida, fones em seus devidos lugares; verifico três vezes se não estou esquecendo de alguma coisa antes de fechar a porta e sair. Ando apressadamente na alameda até chegar a margem da avenida LO4 e paro, há muitos carros na pista. “Droga vou acabar me atrasando desse jeito”. Passa carro, e mais carro, mais carro. Surge uma brecha, mas um bendito motoqueiro se mete nela. Olho pro relógio, os minutos adiantados que eu tinha não valem mais nada. Finalmente uma vaga, mas tenho que correr e por um tris não sou atropelada. Atravesso o canteiro e a beira da outra pista, mais uma espera, mas dessa vez é mais rápida.
Passo por alamedas que parecem desertas. Uma obra aqui outra ali, os pedreiros gritam lá de cima. Como sempre, com meus fones finjo que não escutei, não dou atenção mesmo. Uma ambulância do SAMU passa apressada com sua sirene, naquelas proximidades fica a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Norte. Consigo passar a metade da 103 Norte, incluindo a avenida LO2. Passo em uma estreita rua com duas vias. Vejo a hora e ainda está em tempo.
Chego ao ponto da Galeria Bela Palma. Está cheio como sempre, queria pelo menos um espacinho pra sentar, minhas pernas doem. Escuto algumas pessoas reclamando, mas não consigo entender. Cinco minutos e nada de ônibus, poderia ser o Eixão ou 18 que pra mim estava bom. Mais cinco minutos. É estranho, pois nesse horário teria passado pelo menos 3 Eixões e mais alguns de outras linhas. Totaliza 20 minutos e já estou inquieta, com o fone tento prestar atenção no os outros falam, mas não consigo, então desligo a música. Ouço algo nada agradável: hoje não teria ônibus.
É nesse momento que começo a passar mal. Não posso chegar atrasada no trabalho, meu gerente é muito rígido e não aceita desculpas. Lembro-me das contas a pagar, dos remédios pra ansiedade, não posso perder emprego, não posso. Como farei para chegar lá? A sede fica na 1104 Sul. Preciso arranjar uma carona. Muitas pessoas estão falando ao mesmo tempo, estou ficando com dor de cabeça; alguns poucos retornam para suas casas. Não conheço ninguém ali, da empresa sou a única que mora na região norte, não tem como pegar carona com meus colegas. Minha única amiga lá que talvez fizesse esse favor, se mudou para o Rio Grande do Norte há seis meses. Não tenho opção, ligo para meu gerente e explico a situação, ele me diz que o problema não é dele e que eu que vire. Desligo com lágrimas brotando, tento me esconder para não ser vista naquele estado e começo a tremer. Mas alguém me viu, uma garota de talvez uns 20 anos, ela traz pra mim um copo de água de coco. Tento negar, mas com sua insistência acabo aceitando. Ela explica que é secretária de um advogado na 904 sul. O namorado iria buscá-la de carro, então me ofereceu carona. Prontamente aceito, apesar de achar perigoso por não conhecê-los, é a única opção.
Em quinze minutos ele chega, já havia mais duas pessoas. Pelo que consegui entender são colegas de trabalho dele, que também ficaram sem ônibus. Eu fico no banco de trás. Descemos a Teotônio, paramos na 503 sul, pois era ali que o cara trabalhava e os outros dois desceram. Continuamos, agora na NS2 e passamos direto para a 1104, preferiram me deixar primeiro, achei melhor. Agradeci tanto a eles.

Entrei como uma bala no escritório, não estava a fim de ouvir reclamações. Segundo o noticiário que estava tocando no rádio do carro, o motivo da paralisação dos ônibus é a greve dos motoristas. Somente com tempo pude me recuperar e pensar melhor sobre o assunto, não é somente eu insatisfeita com as condições de trabalho. Cerca de algumas horas depois, o presidente da empresa informou que aqueles que se transportavam com o ônibus, naquele dia não seriam penalizados pelo atraso ou o não comparecimento.

Esta recebeu 10 na aula de Estética do professor Fred Salomé.



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