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quarta-feira, 3 de abril de 2013

18. Querido diário


Gostaria de saber como começar. Estou naquele momento que muitos devem sentir. Sinto vontade de simplesmente largar tudo e voltar para casa. Tenho momentos de autoisolamento e sinto vontade de chorar, mas não consigo. O jeito é escrever em meu diário. Pra melhorar a história, a pessoa que poderia me ajudar está na mesma “foça”, minha melhor amiga. Não sei que rumo nós vamos tomar, mas podemos sobreviver a isso.
Às vezes o coração acelera, depois mergulho em um poço profundo e sem luz em minha mente. Tristeza, angústia, solidão, falta de um motivo para viver. Em alguns momentos chego perigosamente a entender porque muitas pessoas e matam. Mas não posso pensar em fazer esse tipo de coisa. Minha família não ficaria bem e pior ainda, sei que os suicidas não herdarão o reino dos céus. Lá no fundo ainda consigo sonhar com um futuro.
Tenho grande dificuldade de expressar meus sentimentos. Ninguém sabe a respeito do que escrevo aqui. Sempre quando me perguntam se estou bem, respondo que sim e ainda dou um sorriso, não quero preocupar ninguém. Mas às vezes quero contar, preciso contar, mas não consigo, acabo travando e até digo algo totalmente diferente só pra não passar de doida.
Estou odiando não consegui fazer as coisas que gosto. Desenhar, jogar vôlei, passear, andar a pé pela cidade, estar em meio a paisagens belas apenas com o som da natureza.
Esses sentimentos, esse estado de espírito. É horrível. Espero não passar não passar por eles outra vez. Isso chega a afetar demais o corpo, estou tremendo agora.
Que vontade enorme de estar em casa com minha mãe, meu pai e minha irmã. Mas nesse momento não é possível. Tenho que pensar provas, trabalhos, notas, dinheiro, isso é muito estressante. É, em grande parte, a causa desse meu estado.
Não tenho ombro para chorar. Nem sei se tenho lágrimas. Esse é um problema que tenho desde criança, de tanto segurar choro acabo não chorando nos momentos necessários. A angústia e a tristeza ficam presas me corroendo.
Caramba! Não sei o que fazer para isso passar. Estou no estágio de sentir raiva da alegria dos outros, mas eles não têm culpa, ou têm inconscientemente. E ainda há coisas que não consigo colocar aqui, não ainda.
Que Deus nos ajude, a coisa tá feia.


 

17. A vida é cheia de surpresas



Eu achava que já tinha problemas demais. Sempre vivi nesta pacata cidade com meu emprego de professor na única escola particular. Nunca casei, ainda moro com a minha mãe e não consigo manter um relacionamento por muito tempo.
Estou quase realizando meu sonho. Tenho apenas uma graduação em geografia, mas o que quero mesmo é cursar administração. Pelo gabarito tirei uma nota muito boa só que ainda falta a nota da redação pra sair o resultado final. Aí poderei sair daqui e ter minha própria casa. Sonhar é bom, mesmo que isso aconteça ainda tenho que cuidar da minha mãe, ela está muito doente.
Minha nova dor de cabeça se iniciou quando começou o novo semestre. Uma nova aluna entrou em minha turma vinda de outra cidade. Assim que a vi parece que uma energia muito estranha me atravessou, nunca havia sentido aquilo. Depois de algumas semanas com essas sensações descobri o que estava acontecendo: estava apaixonado. Fiquei desesperado, aquilo não podia acontecer. Apesar de Laysa já ter dezoito anos eu já tenho trinta e dois. E o problema maior é que sou professor dela, um relacionamento entre seria um escândalo, isso acabaria com a minha vida e minha carreira. Mas... Quem pode mandar no coração?
Fiz de tudo para ela não perceber, e o máximo para conseguir dar aula normalmente. Toda vez que a via conversando com algum garoto já ficava com raiva, pensava que estavam tentando dar encima dela. Talvez estivessem mesmo, ela era linda. Um dia no calor de um debate em aula eu dei a maior bandeira, sorte que ninguém percebeu.
__ Qual é o seu problema? Parece até que está me perseguindo. __ Foi o que me disse.
Para meu espanto, cerca de alguns dias depois fui convocado a comparecer a diretoria. Ótimo, dessa vez iria levar uma advertência ou até ser demitido. Chegando lá vi uma mulher muito bem vestida que conversava com a diretora.
__ Sente-se_ Diz diretora Miranda.                        
Eu sentei e aí elas me contaram que aquela senhora estava procurando um professor particular para sua filha. Pensei em não aceitar, mas minha mãe precisava de remédios, aceitei a proposta. Quando falaram quem era aluna quase caí para trás. Medo, ansiedade, alegria. Foi que senti naquele momento. Era Laysa.
As aulas aconteciam na casa da família. O primeiro dia foi normal. Uma empregada sempre estava por perto, parece até que estava para nos vigiar. Mas um dia a empregada teve que se ausentar e a garota se transformou na minha frente, de uma aluna com dificuldade a uma aluna brilhante. Eu fiquei sem entender, ela disse que era tudo de propósito, tirava nota baixa porque queria. O motivo me deixou feliz e ao mesmo tempo triste. Ela estava apaixonada por mim. Mas estava estragando seu futuro por isso.
Não sabia o que fazer, nunca havia estado naquela situação. Naquele dia dei um jeito de escapar e fui embora. Pedi conselhos a minha mãe. Tomei uma decisão, iria para as aulas particulares e conversar francamente com ela. Apesar da insistência da mãe não tinha como continuar. Chegada a hora da conversa, não consegui falar nada, apenas sentei e chorei. Ela sentou ao meu lado e me abraçou. Quando consegui parar de chorar aconteceu algo inesperado, ela me beijou, nesse momento parece que o tempo parou.
__ vai me esperar?
__ Sim, eu vou. Mas estude, por favor.
__ Assim que me formar eu vou para onde você estiver.


Para minha sorte minha mãe estava bem no dia em que viajei para fazer o vestibular. Meu desespero foi quando voltei, ela teve uma piora e foi internada, quase não aguentei quando o médico disse que não resistiria àquela noite. Infelizmente acabou sendo verdade, ela morreu o passar da meia-noite. Recebi licença do colégio por alguns dias, não iria conseguir dar aula.
Meses depois saiu a lista de aprovados, fui o décimo sexto, mas passei. Assim que passou o Réveillon me mudei, claro me despedi dela, não sabia se a veria outra vez. Ainda faltava um mês para o início das aulas, usei esse tempo para procurar um emprego. Encontrei um totalmente fora da minha área, pois está em falta de vagas para professores de escola particular, mas ser subgerente de petshop não era tão ruim assim.
No primeiro dia de aula estava muito ansioso, cheguei à universidade mais de uma hora antes da aula, então aproveitei para conhecer mais o campus. Passei pela biblioteca e cheguei até a praça de alimentação. Quando estava saindo da praça alguém me segura pelo braço por trás de mim.
__ Regrediu o nível eim! __ Reconheço a voz e me viro.
__ De professor a aluno outra vez.
__ Estudar é preciso.
__ É... Será que agora temos uma chance?
__ Quem sabe. A vida é cheia de surpresas.
__ E essa surpresa foi boa?
__ Como não poderia ser?




16. Esperando



           Aquela sala me surpreendeu, parecia mais um museu de arte do que uma sala de espera de um consultório psiquiátrico. Uma sala enorme com paredes esverdeadas, cheia de quadros, muitos quadros com pinturas de paisagens. A mesa da secretária é de madeira de demolição. Além dos quadros, na parede haviam várias mandalas de capim dourado, uma delas era um relógio. Os pacientes esperavam sentados em bancos montados com tábuas e troncos de madeira e eu estou sentada em uma poltrona de buriti. Os outros pacientes lêem revistas e jornais, enquanto eu tento ler um livro. Realmente este lugar é bem diferente. 





15. José e Joaquina

José e Joaquina moravam com seus pais numa fazenda. Certo ano houve uma grande seca, a vegetação secou, os animais morreram, eles passaram fome. Os pais preocupados não tiveram outra opção, mandaram as crianças para morar com uma tia na capital. Com medo de nunca conseguirem voltar para casa José e Joaquina marcaram as árvores pelo caminho com uma faca.
Quando chegaram à cidade ficaram maravilhados com tanta gente, tantos carros. Ao chegarem á casa da tia eles pensaram que era o endereço errado, pois aquele lugar era uma enorme loja de doces. Eles entraram e viram coisas que nunca imaginaram que existia: bolos enormes, balas de todas as formas e cores, rocamboles e uma enorme fonte de chocolate bem no meio do salão. José inocentemente pôs a mão na fonte e lambeu os dedos, uma funcionária apareceu agarrou os dois e levou para os fundos da loja. Lá atrás eles entenderam que o endereço estava certo, a tia morava nos fundos da loja. A mulher que estava com eles os levou para a cozinha e deu todo tipo de comida para eles, comeram à vontade. Mas logo após descobriram que nem tudo seria festa. A partir daquele momento as crianças foram postas para trabalhar. Enquanto a tia cuidava do sucesso da loja, José e Joaquina cuidavam da casa. Não podiam estudar, nem brincar, não podiam pelo menos sair de casa. Ninguém sabia que elas estavam lá, apenas a funcionária que as levou até a casa. As janelas eram travadas, os telefones bloqueados.
A tia os aceitou apenas na intenção de colocá-los para trabalhar. Como eram menores não podiam trabalhar na loja de doces, por isso ela os mantinha em casa até atingirem a maior idade. Os anos passaram e durante esse tempo a seca acabou e os pais de José e Joaquina foram buscá-los. Mas a tia disse que eles não estavam mais lá, que haviam fugido. Aquela funcionária vendo o desespero deles esperou que a chefe fosse embora e contou tudo a eles. O mais rápido que puderam chamaram a polícia, que no mesmo dia invadiram casa, libertaram as crianças e prenderam a mulher.
A família voltou para casa feliz. José e Joaquina reconheceram o caminho pelas árvores marcadas. Curtiram a liberdade na fazenda cuidando dos novos animais.