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sexta-feira, 9 de maio de 2014

32. Consequências de Bernardo

 “Correr, agora era a única coisa que Bernardo poderia fazer. Acabou de assaltar uma garota que estava sozinha sentada em um banco da orla do lago, ela reagiu e ele assustado por ser a primeira vez, disparou a arma. Saiu desesperado e a deixou caída no chão, jogou a arma na água e ofegante entrou no primeiro ônibus que viu. Quando entrou em casa passou direto para o quarto e escondeu no fundo do guarda-roupas a bolsa que roubou, entrou embaixo do chuveiro e ligou a água gelada, sem tirar a roupa, depois se deitou na cama e pôs-se a pensar no que tinha feito.” Todo suado, acordou no susto do pesadelo que acabou de ter.
Cerca de uma semana depois, Jessie, o seu primo, lhe trouxe uma novidade. A irmã da namorada dele queria conhecer seu primo, só que tinha uma coisa que poderia atrapalhar, ela era rica. O que para Be era uma questão muito grave, pois ele não acreditava que poderia haver relação amorosa verdadeira entre pessoas de classes sociais diferentes. Jessie não estava na mesma situação, a sua namorada e a irmã dela eram filhas apenas da mesma mãe, o pai da outra que era rico e já estava casado com outra mulher.
__ Cara, como você quer me arrumar uma riquinha. Você sabe o que eu penso.
__ É, mas ela gostou de você, mostrei a sua foto. É roqueira igualzinha a ti. Além do mais é apenas um encontro, nada demais.
__ O.k. Pode confirmar. Espero que ela seja gata.
__ Por que não compra um presente? Não precisa ser uma joia, nada disso. Alguma coisa simbólica.
__ Você sabe que eu tô sem grana.
__ Eu te arrumo um agrado.
__ Mais uma vez com essa. Não quero nada que venha do Roberto.
__ Você é que sabe, a dica tá dada. __ A conversa foi interrompida, quando Aline, a irmã de Bernardo, entrou no quarto de surpresa.
O pai deles estava tendo um enfarte e foi levado para o hospital, mas o hospital público daquela região estava superlotado, o jeito foi irem para um particular. Lá ele ficou por um dia em tratamento e outro em observação e teve alta. A conta saiu caríssima e a família não tinha condição nenhuma de arcar com esses custos. A mãe era garçonete em um restaurante pequeno, o pai já estava aposentado e não conseguia emprego pela idade que já tinha, Aline ainda estava no ensino fundamental, Bernardo tinha acabado de sair do reformatório e estava com dificuldade em conseguir emprego. O hospital ainda deu o benefício do pagamento ser feito em parcelas mensais, ainda assim o valor estava muito alto. Jessie chamou o primo para uma conversa em particular e apresentou a única solução viável naquele momento.
__ Eu falei com o Roberto. Você pode fazer um servicinho para ele e se for bem, a dívida com o hospital será responsabilidade dele.
__ Não, não. Já fiquei muito tempo preso por causa dele. Eu fui o único olheiro que a polícia encontrou lá no morro. Jurei que não iria para essa vida de novo.
__ Mas o caso agora era outro. Olha o que está em jogo.
Passaram-se cinco três dias e Bernardo os usou para pensar. Concluiu que não teria saída e foi outra vez para o mundo obscuro que nunca deveria ter ido. Morro do Pombo Cinza, onde roberto era subchefe da quadrilha de traficantes de drogas. Ele usava crianças e adolescentes no seu negócio, como “mulas” fazendo transporte mais raramente e como olheiros prestando atenção na presença da polícia na área, avisando com uma pipa fazendo movimentos. Be estava fazendo esta função quando foi preso e ficou retido por dezesseis meses até completar de dezoito anos.
As ruas do morro eram bem estreitas e escuras em certos pontos e em um desses estava a “boca”. Na entrada tinha dois homens armados, um em cada lado da porta que estava aberta. Após a porta que estava aberta. Após a porta tinha uma pequena sala com uma mulher atrás da mesa.
__ Entre garoto ele está te esperando no escritório.
Seguiu o corredor e entrou no escritório, que estava cheio de exemplares de armas expostas nas paredes. Roberto estava sentado atrás de uma maleta encima e um contador de dinheiro.
__ Você não serve mais para sua antiga função, seu rosto já está conhecido nas ruas. Vou te passar algo diferente, mais perigoso, mas vou te pagar por ter feito um bom serviço no passado. Vai pra rua fazer novos clientes e caso a situação se complique pode usar este brinquedinho aqui. __ Falou mostrando um revólver.
Naquela mesma noite Bernardo foi se encontrar com os caras que estariam com ele, mas área era estranha, pois era a parte central da cidade, ele perdeu quando chegou na orla. Avistou uma garota sentada em um banco e foi pedir informação para ela. Ele estava encapuzado e não dava para ver o rosto, chegou bem perto, mas ela se assustou e começou a gritar. Bernardo tapou a boca dela que tentava se soltar de todo jeito. Um dos capangas de Roberto chegou bem na hora, a menina se soltou e correu para ele pedindo ajuda. Tropeçou e se agarrou na blusa, que escorregou e fez o capuz cair e revelar o rosto do cara.
__ Mas que droga! Quem é essa garota?
__ Não sei. Só vim pedir uma informação e ela se assustou.
__ Agora já era. Ela viu meu rosto.
Não cara. Não faz isso.
O pedido foi inútil, o bandido sacou a arma e atirou no peito dela, que caiu no chão. Bernardo correu até ela e a segurou deitada sem saber o que fazer. O outro cara o puxou pelo braço.
__ Vamos, vai ficar aí? A polícia tá área e já já tá aqui. Quer ser preso de novo?
__ Tá louco cara?! Vai você, eu vou ficar, eu me viro.
__ Você é quem sabe. O que importa é que não sobre pra mim. __ Falou e saiu correndo.
Uma ambulância foi chamada e demorou vinte minutos para chegar. Ele preferiu não ir, pois estava com uma arma e não queria se arriscar mais do que já tinha feito. Meio flutuante, foi para casa, que para sua sorte já estavam todos dormindo e, pelo menos naquele momento, não teria que dar explicações a ninguém. Nessa noite ele não dormiu pensando no que tinha acontecido. A dívida que tinha que pagar, a falta de emprego e agora uma pessoa que poderia estar morta por sua culpa. Queria saber ela estava, mas não tinha como.
Quando amanheceu eles tiveram uma surpresa. Um pastor de uma igreja vizinha chegou na casa deles e lhes entregou um envelope. Ele disse que ali tinha o valor da primeira parcela da dívida; a vizinhança, os moradores, comerciante e as igrejas da área reuniram aquele dinheiro para ajudá-los. Bernardo e a família receberam o presente com lágrimas e ele mesmo resolveu ir até o hospital para pagar. Eles até deram um pagamento feito antes da data. Mas a surpresa maior ainda não tinha acontecido; quando chegou em casa ele recebeu a visita de Jessie e a namorada dele, Carla.
__ Minha irmã era pra ter vindo com a gente, mas aconteceu uma coisa terrível com ela. __ Disse Carla e começou a chorar.
__ A Camila foi baleada ontem à noite. Ela estava lá na orla do lago. Está com a vida por um fio. __ Falou Jessie, sem saber o que aquela informação significava para para o primo, que ficou paralisado. Estávamos no hospital agora, mas a Carla não estava bem e estava muito cansada, então a trouxe para cá. Os vizinhos lá de casa estão fazendo uma reforma e muito barulho, ela não ficaria bem lá.
__ Não. Tudo bem. __ Falou Bernardo voltando a realidade. Mas agora estava com os pensamentos a mil. Será que ela sobreviveria? Se sim, será que reconheceria seu rosto e esta história entre eles que nem tinha começado acabaria.
Os dias que se seguiram foram agonizantes. Roberto mandou um recado dizendo que ele não prestava para o trabalho, mas que o deixaria em paz se ele ficasse calado e ainda assim estaria de olho nele. Camila não mudava seu quadro, permanecia sedada. Em um desses dias Bernardo pediu para ir visitá-la, até então ele ainda não a tinha visto direito. No horário de visitas Carla o levou até o quarto onde a irmã dela estava e o deixou lá. Ele ficou olhando para a menina na cama por vários minutos, depois se aproximou e pegou em sua mão. Sem ele perceber, pois olhava para a janela, ela foi abrindo os olhos.
__ É você! __ Ele abriu os olhos no susto ao ouvir aquilo. __ É você!
Pensando que ela o havia reconhecido daquela noite, Bernardo soltou sua mão e saiu apressado e em seguida Carla entrou com muita alegria, sem perceber o que estava acontecendo. Para ele aquilo tudo estava sendo mais difícil porque não contou nada para ninguém, nem para Jessie. Ele passou em casa, pegou o skate e foi para a rua dar umas voltas para esfriar a cabeça e voltou no fim da tarde. Só tinha a mãe em casa preparando o jantar, sentou no sofá por uns dois minutos e resolveu ajudá-la na cozinha.
__ Notei você diferente nesses dias filho. Está com algum problema que não saibamos?
__ Não se preocupe com isso mãe, eu resolvo tudo. Lembra do nosso combinado? Todo problema tem ser resolvido em família.
__ Olha mãe... Já fiz vocês sofrerem demais, só quero que fiquem em paz. Nós temos outras preocupações agora.
__ A dívida... O meu patrão disse que vai me dar um aumento por ser boa funcionária, mas todos sabem o porquê na verdade. É para nos ajudar.
__ Que bom.
__ Se cuida eim. Não vá se meter com aquela gente outra vez. Se for preso agora, vai pra cadeia de verdade.
Depois de terminar o preparo do jantar Bernardo foi para o quarto e ficou lá até a chegada de Jessie e mais dois amigos.
__ Nós vamos lá no boteco jogar sinuca, quer ir? __ Falou Paulo.
__ Não. Tenho que estudar para o teste. Preciso passar nessa prova para conseguir voltar para a escola.
__ Que isso cara?! Sabemos que está com problemas, mas você precisa voltar para a vida. __ Disse Otávio.
__ Há dias você não sai com a gente. __ Reclama Jessie.
__ Eu tô com a cabeça cheia. Não quero sair agora.
__ O.k. Nós vamos, mas voltamos depois. Ah! A Carla disse que vem aqui amanhã conversar com você. É alguma coisa sobre a Camila.
Tentou estudar, mas não conseguiu. A todo momento vinha o pensamento: qual assunto Carla queria com ele. Será que a irmã contou que o reconheceu, que ele estava lá na noite em que ela foi baleada. Estava com medo de ser preso de novo, mesmo não sendo ele o autor do disparo. Estava com medo da quadrilha de Roberto, dele mudar de ideia e resolver fazer alguma coisa com a sua família. E ainda tinha um fato importante: o tiro que Camila levou foi porque viu o rosto do capanga da quadrilha e agora ela estava viva, pronta para denunciar.
Quando Carla entrou na sala, Bernardo pensou que estava morto. A convidou para conversarem no fundo do quintal onde ninguém incomodaria naquele momento. O coração estava quase saltando.
__ Camila está bem, se recuperando, agora sem sedativos. Ela me pediu para te dar um recado. Quer que você vá vê-la e que não importa o que tenha acontecido, já é passado.
__ Ela te contou? O que aconteceu.
__ Não. Apesar de eu ter insistido. Acho melhor assim, vocês precisam de privacidade. Mas tem uma coisa. Por favor, não a faça sofrer. Ela já levou muita pancada da vida e não precisa de mais uma.
__ Quando posso ir?
__ Agora mesmo se quiser, eu te levo.
__ Quero sim.
Camila estava deitada. Quando a sua visita chegou, ela inclinou a cama e ficou sentada. Bernardo entrou devagar, sem dizer nada, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. Ainda em silêncio ele não conseguiu olhar nos olhos dela, que pegou uma de suas mão e segurou.
__ A culpa não foi sua. Não foi você que atirou.
__ Eu nem fui junto na ambulância. Estava com medo.
__ Mas você me salvou. Ficou lá comigo até a ambulância chegar.
__ Por que está sendo tão boa assim? Isso é mais torturante ainda pra mim.
__ Gosto de você.
__ Mas nem me conhece.
__ Conheço. Pelo menos pelo que o Jessie fala.
__ Tô preocupado com você. Aquele cara pode voltar para terminar o que começou.
__ Não se preocupe. Falei para todos que não me lembro de quem atirou em mim e que ele estava sozinho.
__ A polícia pode descobrir.
__ Eles não têm pistas, eu sou a única testemunha.
__ Obrigado!
__ Eu sei. Carla e Jessie me contaram. Você pode ser preso novamente. Eu só tenho um pedido para fazer.
__ O quê?
__ Quando eu sair daqui vamos ao cinema? __ Perguntou ela sorrindo e também sorrindo ele respondeu:

__ Claro. Dessa vez um encontro de verdade.

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