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quarta-feira, 3 de abril de 2013

16. Esperando



           Aquela sala me surpreendeu, parecia mais um museu de arte do que uma sala de espera de um consultório psiquiátrico. Uma sala enorme com paredes esverdeadas, cheia de quadros, muitos quadros com pinturas de paisagens. A mesa da secretária é de madeira de demolição. Além dos quadros, na parede haviam várias mandalas de capim dourado, uma delas era um relógio. Os pacientes esperavam sentados em bancos montados com tábuas e troncos de madeira e eu estou sentada em uma poltrona de buriti. Os outros pacientes lêem revistas e jornais, enquanto eu tento ler um livro. Realmente este lugar é bem diferente. 





15. José e Joaquina

José e Joaquina moravam com seus pais numa fazenda. Certo ano houve uma grande seca, a vegetação secou, os animais morreram, eles passaram fome. Os pais preocupados não tiveram outra opção, mandaram as crianças para morar com uma tia na capital. Com medo de nunca conseguirem voltar para casa José e Joaquina marcaram as árvores pelo caminho com uma faca.
Quando chegaram à cidade ficaram maravilhados com tanta gente, tantos carros. Ao chegarem á casa da tia eles pensaram que era o endereço errado, pois aquele lugar era uma enorme loja de doces. Eles entraram e viram coisas que nunca imaginaram que existia: bolos enormes, balas de todas as formas e cores, rocamboles e uma enorme fonte de chocolate bem no meio do salão. José inocentemente pôs a mão na fonte e lambeu os dedos, uma funcionária apareceu agarrou os dois e levou para os fundos da loja. Lá atrás eles entenderam que o endereço estava certo, a tia morava nos fundos da loja. A mulher que estava com eles os levou para a cozinha e deu todo tipo de comida para eles, comeram à vontade. Mas logo após descobriram que nem tudo seria festa. A partir daquele momento as crianças foram postas para trabalhar. Enquanto a tia cuidava do sucesso da loja, José e Joaquina cuidavam da casa. Não podiam estudar, nem brincar, não podiam pelo menos sair de casa. Ninguém sabia que elas estavam lá, apenas a funcionária que as levou até a casa. As janelas eram travadas, os telefones bloqueados.
A tia os aceitou apenas na intenção de colocá-los para trabalhar. Como eram menores não podiam trabalhar na loja de doces, por isso ela os mantinha em casa até atingirem a maior idade. Os anos passaram e durante esse tempo a seca acabou e os pais de José e Joaquina foram buscá-los. Mas a tia disse que eles não estavam mais lá, que haviam fugido. Aquela funcionária vendo o desespero deles esperou que a chefe fosse embora e contou tudo a eles. O mais rápido que puderam chamaram a polícia, que no mesmo dia invadiram casa, libertaram as crianças e prenderam a mulher.
A família voltou para casa feliz. José e Joaquina reconheceram o caminho pelas árvores marcadas. Curtiram a liberdade na fazenda cuidando dos novos animais.





quinta-feira, 14 de março de 2013

14. Quero ser veterinária

Daniele está no quarto deitada em sua cama ouvindo música no ipode. Levanta e dança pelo quarto muito animada. Um cachorro entra pela porta latindo, o seu pelo está todo colorido (verde, rosa, amarelo, azul). Daniele dá um grito e chama pela mãe, ela acusa Rubem, seu irmão mais novo, de ter feito aquela brincadeira e ele afirma insistentemente que não foi ele, mas a mãe acaba encontrando os potes de tinta embaixo da cama dele e uma mancha de tinta verde atrás da orelha. O cachorro é levado para tomar banho e o pelo volta à cor normal.
No outro dia em pleno almoço o cachorro entra correndo e latindo outra vez, só que agora não havia mais pelo. Daniele acusa Rubem outra vez, mas não tem como provar, pois ele esteve o dia todo com a mãe no trabalho e ainda ajudou no almoço, passou o tempo todo na cozinha. Todos começam a pensar como aquilo poderia ter acontecido. Os meninos vão para o quintal, Rubem teve a ideia de procurar por pistas, mas não encontraram nada até ouvirem latidos de cachorro no quintal do vizinho. Aquilo era estranho, pois ali não morava alguém há anos. Então Daniele Puxou uma escada e encostou no muro, subiu e olhou para o outro lado.
Aquela cena era horrível: cerca de sete cães totalmente sem pelo, amordaçados e pendurados pelas patas traseiras em um varal. Da casa velha sai um homem com roupas velhas e com aparência de que não tomava banho há muito tempo. Ele traz consigo um cachorro grande amordaçado, o amarra no tronco de uma árvore e então pega uma máquina e começa a cortar os pelos do cão. Ao terminar ele o carrega em direção ao varal e assim percebe que um deles sumiu.
__ Onde ele está? Onde ele está? Onde ele está?
Daniele assustada com tudo aquilo percebe que ele estava atrás do cachorro dela. Desce a escada, puxa seu irmão e corre para dentro de casa. Lá conta tudo o que viu aos pais e imediatamente eles chamam a polícia. Conseguiram entrar no quintal sem problemas e capturaram o homem, enquanto era levado para a viatura ele gritava:
__ Deixem eles lá, todos eles. Eles vão matar todos vocês eu sei.
Foram informados de que ele havia fugido do sanatório há quatro dias e que ele tinha problemas desde a infância com cachorros. Com urgência, veterinários vieram cuidar dos cães, eles estavam muito debilitados. Naquele dia Daniele decidiu que iria ser veterinária.




13. Fora da rotina

 Acordar cedo, tirar o leite das vacas e das cabras, tomar café da manhã. A rotina de Geraldo, Rosa e a filha Alice. Como a menina estuda somente à tarde ela ajuda a mãe todos os dias no almoço. Mas aquele dia não iria ser igual aos outros. Por volta das nove horas ouvem-se dois tiros e o soar do berrante. Todos sabiam que aquele era código para dizer que animais tinham sumido.
__ Senhora! Senhora!__ Uma mulher entra na cozinha.
__ Que foi Zefa?!__ Responde Rosa preocupada.
__ Dois cavalos foram roubados. Primeiro pensamos que haviam fugido, mas depois vimos pegadas e roupas no lugar onde eles dormiam.
­__ E agora?!
__ Agora todos vão atrás deles. E pediram pra chamar a menina.
__ A não! Eu tenho prova final hoje e, além disso, é muito perigoso e se os ladrões estiverem armados?
Geraldo aparece e orienta a filha a ir fazer a prova. Mas ela vendo o desespero de todos, tanto pelo sumiço dos cavalos como pelos bandidos soltos na região, resolveu ajudar, pois quando ela decide ninguém consegue ficar na frente.
Parte dos peões, Geraldo e Alice vão a cavalo para a mata. Conseguiram encontrar pegadas que tinha quase certeza que era do Pangaré, que apesar do nome era o cavalo mais caro da fazenda. Pai, filha e mais dois peões vão atrás do pangaré, enquanto isso os outros quatro vão atrás do outro cavalo que é muito rebelde. Estes conseguiram encontrar o cavalo sozinho cerca de dez minutos depois e levaram ele de volta. Os outros ainda demoraram muito até encontrar.
Pangaré estava amarrado a uma árvore na beira de um riacho e próximo a ele um homem tomava banho. Alice o reconhece.
__ Pai! É aquele cara que apareceu na TV. Os assaltantes que entraram no banco ontem á noite. __ Sussurra.
Geraldo pede que Alice se afaste e então os peões armados rendem o bandido e o colocam amarrado no cavalo e o levam até a fazenda. Lá entraram num carro e foram até a cidade. Alice fica em casa com sua mãe e Jeferson, que mora na cidade, e foi mandado para cuidar da irmã e de sua mãe Rosa.
Na delegacia o assaltante é entregue juntamente com a bolsa onde estava o dinheiro. O cara acaba contando tudo: na fuga ele perdeu o controle do carro que foi bater na margem da estrada. Ele e o cúmplice conseguiram chegar a pé na fazenda e no estábulo pegaram os cavalos de madrugada. Ele muito cansado conseguiu chegar até o riacho, mas o outro desapareceu com metade do dinheiro.
Ainda na delegacia Geraldo recebe a notícia de seu filho que Rosa e Alice haviam sido rendidas pelo outro ladrão. Os peões, o patrão e os policiais vão para a fazenda. Mas quando chegam, o homem está estirado no meio da sala. Jeferson havia aproveitado um momento de distração e deu uma pancada na cabeça dele. Ele caiu, mas ainda estava vivo e foi levado para o hospital pela polícia e depois preso.
Depois desse dia turbulento a família resolve fazer um jantar comemorativo para todos na fazenda. Até a família do banqueiro apareceu.
__ Então foi por isso que não foi à aula hoje.__ Diz André o filho do dono do banco.__ Senti sua falta. Quer dizer, a turma sentiu. __ Ele pega na mão dela.
__ Ei! Já disse que não.
__ Será que um dia terei uma chance?
                       __ Talvez! Se parar com gracinha.__ Ela o deixa sozinho na varanda e volta para a festa.




12. Natália


__ Nossa! Mais um dia daqueles. Um dia eu saio desse muquifo.
__ Bom dia! Sil.
__ Bom dia! Carlos.
__ Me avisaram que vai mudar mais um pro meu quarto.
__ Pois é. Uma menina vem hoje pra cá. Espero que ela seja legal, senão não vai dar certo.
__ Calma, é mais uma pra limpar o banheiro.
__ A tá! Mai um problema. Deixa-me ir senão vou me atrasar.
__ Tchau!
__ Tchau!
Hoje tenho mais uma prova pra fazer, parece até que elas não acabam, é uma por dia. Ainda bem que eu só preciso de três pontos para não ir para a prova final nessa. Ai! Que ótimo esqueci-me de avisar pra Débora que teremos uma nova moradora no quarto. Também ela vive viajando e talvez nem note.
À noite quando cheguei em casa a menina já estava lá com apenas uma mala, digo menina pois ela parece ser nova. Convido-a para jantar, mas não aceita. Ela está muito nervosa. Sai à porta a toda hora. Por volta de dez horas ela vai ao banheiro e enquanto isso chega um cara de moto e para na porta do nosso quarto.
__ A Natália está? __ Ele pergunta enquanto dá uma olhada por dentro do quarto.
__ Ela foi ao banheiro, já deve voltar. Entra, senta.
__ Não, obrigado! __ Falou secamente. Nesse momento ela volta.
__ Vamos!
__ Só vou pegar minha bolsa. __ Eles saem.
Nossa! Será que ele é o pai dela? Ele aparenta quase uns cinquenta anos. O estranho é que só voltaram no outro dia e ela estava com uma marca roxa no braço. Eu preferi não perguntar nada.
Cerca de um mês se passou e muitas vezes Natália apareceu com escoriações pelo corpo. Para agravar ela quase não come, deve ser anoréxica. E ainda não descobri qual é o curso dela, ninguém a vê estudando. Muitas vezes ela estava chorando quando eu chegava em casa e sem sucesso tentei descobrir o que estava acontecendo. Resolvi deixar prá lá, se não queria a minha ajuda eu não ia me meter. Mas a situação se agrava a cada dia: além das feridas tinham os desmaios constantes. Cheguei a pedir ajuda a minha mãe que mora tão longe e fui aconselhada a continuar tentando descobrir qual o problema. Eu insisti tanto que acabamos brigando, mas nesse mesmo dia ela se cansou e me contou tudo.
Há alguns anos ela descobriu que tem anorexia. Revoltou-se com a família por aceitá-la não daquele jeito e a situação piorou quando descobriram que ela estava saindo com um cara mais velho, muito mais velho. Um período difícil para ela foi quando ele propôs que eles se mudassem para outra cidade e sem avisar ninguém ela veio com ele para cá.
Aqui começa a história assombrosa. Ela é menor de idade e nem estuda, o cara falsificou todos os documentos dela pra que morasse a aqui na casa (Aqui só podem morar estudantes do ensino superior, maiores de idade ou menores emancipados). Não queria que morasse com ele, possivelmente era casado. Na maioria das vezes que os dois saíam ele batia nela e falava coisas horríveis. Mas depois pedia desculpas. Ela resolveu terminar o relacionamento, já estava cansada. Ele, não satisfeito com o fim do namoro, apareceu aqui e fez o maior escândalo. Disse que ela tinha é que agradecer, que foi causa dele que ela tinha onde morar. E falou que se ela não fosse com ele na moto iria fazer um escândalo maior. E todo mundo sem acreditar viu ela subir na moto e os dois saírem pelo portão.
Mas ainda havia muita coisa por acontecer naquele dia. Transtornado o velho tentou furar o sinal vermelho e a moto bateu em outro veículo. Ele quebrou todos os dentes, mas como tinha dinheiro logo repôs. Já Natália por sorte escapou da morte, porém ficou com uma perna quebrada, fratura na coluna e na clavícula e o rosto quase totalmente desfigurado. Não tivemos como avisar a família, pois ela não quis dar nenhum telefone. Só que eles acabaram descobrindo o telefone da Roberta, uma das moradoras da casa que era da mesma cidade que eles e ela contou tudo. Eles ficaram horrorizados, pois o cara disse a eles que ela tinha apenas quebrado a perna e já estava bem, sendo que na verdade ela estava internada em um hospital. A mãe acompanhou Natália até a alta e conseguiu convencê-la a voltar para casa.
Alguns meses depois muitos não se lembravam mais do que aconteceu aqui no prédio e outras como eu, lembravam constantemente. Como será que ela está? Estará bem? Certo dia minhas perguntas foram respondidas. Um dos moradores da casa viu Natália recentemente aqui na cidade, outra vez com aquele homem na moto. Nossa! Como o ser humano é imprevisível.
__ Eita! Tô atrasada outra vez. Desse jeito eu não me formo e minha mãe me mata.
__ Aí! Olha por onde anda.
__ Desculpa! Deixa que eu pego suas coisas.
__ Obrigada!
Que ótimo. Agora aparece esse cara e topa em mim. Até que ele é pegável. Que isso Silvia! Foco nos estudos. E ele ainda faz o favor de olhar para trás.