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quinta-feira, 14 de março de 2013

12. Natália


__ Nossa! Mais um dia daqueles. Um dia eu saio desse muquifo.
__ Bom dia! Sil.
__ Bom dia! Carlos.
__ Me avisaram que vai mudar mais um pro meu quarto.
__ Pois é. Uma menina vem hoje pra cá. Espero que ela seja legal, senão não vai dar certo.
__ Calma, é mais uma pra limpar o banheiro.
__ A tá! Mai um problema. Deixa-me ir senão vou me atrasar.
__ Tchau!
__ Tchau!
Hoje tenho mais uma prova pra fazer, parece até que elas não acabam, é uma por dia. Ainda bem que eu só preciso de três pontos para não ir para a prova final nessa. Ai! Que ótimo esqueci-me de avisar pra Débora que teremos uma nova moradora no quarto. Também ela vive viajando e talvez nem note.
À noite quando cheguei em casa a menina já estava lá com apenas uma mala, digo menina pois ela parece ser nova. Convido-a para jantar, mas não aceita. Ela está muito nervosa. Sai à porta a toda hora. Por volta de dez horas ela vai ao banheiro e enquanto isso chega um cara de moto e para na porta do nosso quarto.
__ A Natália está? __ Ele pergunta enquanto dá uma olhada por dentro do quarto.
__ Ela foi ao banheiro, já deve voltar. Entra, senta.
__ Não, obrigado! __ Falou secamente. Nesse momento ela volta.
__ Vamos!
__ Só vou pegar minha bolsa. __ Eles saem.
Nossa! Será que ele é o pai dela? Ele aparenta quase uns cinquenta anos. O estranho é que só voltaram no outro dia e ela estava com uma marca roxa no braço. Eu preferi não perguntar nada.
Cerca de um mês se passou e muitas vezes Natália apareceu com escoriações pelo corpo. Para agravar ela quase não come, deve ser anoréxica. E ainda não descobri qual é o curso dela, ninguém a vê estudando. Muitas vezes ela estava chorando quando eu chegava em casa e sem sucesso tentei descobrir o que estava acontecendo. Resolvi deixar prá lá, se não queria a minha ajuda eu não ia me meter. Mas a situação se agrava a cada dia: além das feridas tinham os desmaios constantes. Cheguei a pedir ajuda a minha mãe que mora tão longe e fui aconselhada a continuar tentando descobrir qual o problema. Eu insisti tanto que acabamos brigando, mas nesse mesmo dia ela se cansou e me contou tudo.
Há alguns anos ela descobriu que tem anorexia. Revoltou-se com a família por aceitá-la não daquele jeito e a situação piorou quando descobriram que ela estava saindo com um cara mais velho, muito mais velho. Um período difícil para ela foi quando ele propôs que eles se mudassem para outra cidade e sem avisar ninguém ela veio com ele para cá.
Aqui começa a história assombrosa. Ela é menor de idade e nem estuda, o cara falsificou todos os documentos dela pra que morasse a aqui na casa (Aqui só podem morar estudantes do ensino superior, maiores de idade ou menores emancipados). Não queria que morasse com ele, possivelmente era casado. Na maioria das vezes que os dois saíam ele batia nela e falava coisas horríveis. Mas depois pedia desculpas. Ela resolveu terminar o relacionamento, já estava cansada. Ele, não satisfeito com o fim do namoro, apareceu aqui e fez o maior escândalo. Disse que ela tinha é que agradecer, que foi causa dele que ela tinha onde morar. E falou que se ela não fosse com ele na moto iria fazer um escândalo maior. E todo mundo sem acreditar viu ela subir na moto e os dois saírem pelo portão.
Mas ainda havia muita coisa por acontecer naquele dia. Transtornado o velho tentou furar o sinal vermelho e a moto bateu em outro veículo. Ele quebrou todos os dentes, mas como tinha dinheiro logo repôs. Já Natália por sorte escapou da morte, porém ficou com uma perna quebrada, fratura na coluna e na clavícula e o rosto quase totalmente desfigurado. Não tivemos como avisar a família, pois ela não quis dar nenhum telefone. Só que eles acabaram descobrindo o telefone da Roberta, uma das moradoras da casa que era da mesma cidade que eles e ela contou tudo. Eles ficaram horrorizados, pois o cara disse a eles que ela tinha apenas quebrado a perna e já estava bem, sendo que na verdade ela estava internada em um hospital. A mãe acompanhou Natália até a alta e conseguiu convencê-la a voltar para casa.
Alguns meses depois muitos não se lembravam mais do que aconteceu aqui no prédio e outras como eu, lembravam constantemente. Como será que ela está? Estará bem? Certo dia minhas perguntas foram respondidas. Um dos moradores da casa viu Natália recentemente aqui na cidade, outra vez com aquele homem na moto. Nossa! Como o ser humano é imprevisível.
__ Eita! Tô atrasada outra vez. Desse jeito eu não me formo e minha mãe me mata.
__ Aí! Olha por onde anda.
__ Desculpa! Deixa que eu pego suas coisas.
__ Obrigada!
Que ótimo. Agora aparece esse cara e topa em mim. Até que ele é pegável. Que isso Silvia! Foco nos estudos. E ele ainda faz o favor de olhar para trás.

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