__ Nossa! Mais um dia daqueles. Um dia eu saio desse muquifo.
__ Bom dia! Sil.
__ Bom dia! Carlos.
__ Me avisaram que vai mudar mais um pro meu quarto.
__ Pois é. Uma menina vem hoje pra cá. Espero que ela seja legal, senão
não vai dar certo.
__ Calma, é mais uma pra limpar o banheiro.
__ A tá! Mai um problema. Deixa-me ir senão vou me atrasar.
__ Tchau!
__ Tchau!
Hoje tenho mais uma prova pra fazer, parece até que elas não acabam, é
uma por dia. Ainda bem que eu só preciso de três pontos para não ir para a
prova final nessa. Ai! Que ótimo esqueci-me de avisar pra Débora que teremos
uma nova moradora no quarto. Também ela vive viajando e talvez nem note.
À noite quando cheguei em casa a menina já estava lá com apenas uma
mala, digo menina pois ela parece ser nova. Convido-a para jantar, mas não
aceita. Ela está muito nervosa. Sai à porta a toda hora. Por volta de dez horas
ela vai ao banheiro e enquanto isso chega um cara de moto e para na porta do
nosso quarto.
__ A Natália está? __ Ele pergunta enquanto dá uma olhada por dentro do
quarto.
__ Ela foi ao banheiro, já deve voltar. Entra, senta.
__ Não, obrigado! __ Falou secamente. Nesse momento ela volta.
__ Vamos!
__ Só vou pegar minha bolsa. __ Eles saem.
Nossa! Será que ele é o pai dela? Ele aparenta quase uns cinquenta
anos. O estranho é que só voltaram no outro dia e ela estava com uma marca roxa
no braço. Eu preferi não perguntar nada.
Cerca de um mês se passou e muitas vezes Natália apareceu com
escoriações pelo corpo. Para agravar ela quase não come, deve ser anoréxica. E
ainda não descobri qual é o curso dela, ninguém a vê estudando. Muitas vezes
ela estava chorando quando eu chegava em casa e sem sucesso tentei descobrir o
que estava acontecendo. Resolvi deixar prá lá, se não queria a minha ajuda eu
não ia me meter. Mas a situação se agrava a cada dia: além das feridas tinham
os desmaios constantes. Cheguei a pedir ajuda a minha mãe que mora tão longe e
fui aconselhada a continuar tentando descobrir qual o problema. Eu insisti
tanto que acabamos brigando, mas nesse mesmo dia ela se cansou e me contou
tudo.
Há alguns anos ela descobriu que tem anorexia. Revoltou-se com a
família por aceitá-la não daquele jeito e a situação piorou quando descobriram
que ela estava saindo com um cara mais velho, muito mais velho. Um período
difícil para ela foi quando ele propôs que eles se mudassem para outra cidade e
sem avisar ninguém ela veio com ele para cá.
Aqui começa a história assombrosa. Ela é menor de idade e nem estuda, o
cara falsificou todos os documentos dela pra que morasse a aqui na casa (Aqui
só podem morar estudantes do ensino superior, maiores de idade ou menores
emancipados). Não queria que morasse com ele, possivelmente era casado. Na
maioria das vezes que os dois saíam ele batia nela e falava coisas horríveis.
Mas depois pedia desculpas. Ela resolveu terminar o relacionamento, já estava
cansada. Ele, não satisfeito com o fim do namoro, apareceu aqui e fez o maior
escândalo. Disse que ela tinha é que agradecer, que foi causa dele que ela
tinha onde morar. E falou que se ela não fosse com ele na moto iria fazer um
escândalo maior. E todo mundo sem acreditar viu ela subir na moto e os dois
saírem pelo portão.
Mas ainda havia muita coisa por acontecer naquele dia. Transtornado o
velho tentou furar o sinal vermelho e a moto bateu em outro veículo. Ele
quebrou todos os dentes, mas como tinha dinheiro logo repôs. Já Natália por
sorte escapou da morte, porém ficou com uma perna quebrada, fratura na coluna e
na clavícula e o rosto quase totalmente desfigurado. Não tivemos como avisar a
família, pois ela não quis dar nenhum telefone. Só que eles acabaram
descobrindo o telefone da Roberta, uma das moradoras da casa que era da mesma
cidade que eles e ela contou tudo. Eles ficaram horrorizados, pois o cara disse
a eles que ela tinha apenas quebrado a perna e já estava bem, sendo que na
verdade ela estava internada em um hospital. A mãe acompanhou Natália até a
alta e conseguiu convencê-la a voltar para casa.
Alguns meses depois muitos não se lembravam mais do que aconteceu aqui
no prédio e outras como eu, lembravam constantemente. Como será que ela está?
Estará bem? Certo dia minhas perguntas foram respondidas. Um dos moradores da
casa viu Natália recentemente aqui na cidade, outra vez com aquele homem na
moto. Nossa! Como o ser humano é imprevisível.
__ Eita! Tô atrasada outra vez. Desse jeito eu não me formo e minha mãe
me mata.
__ Aí! Olha por onde anda.
__ Desculpa! Deixa que eu pego suas coisas.
__ Obrigada!
Que ótimo. Agora aparece esse cara e topa em mim. Até que ele é
pegável. Que isso Silvia! Foco nos estudos. E ele ainda faz o favor de olhar
para trás.

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