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quinta-feira, 14 de março de 2013

14. Quero ser veterinária

Daniele está no quarto deitada em sua cama ouvindo música no ipode. Levanta e dança pelo quarto muito animada. Um cachorro entra pela porta latindo, o seu pelo está todo colorido (verde, rosa, amarelo, azul). Daniele dá um grito e chama pela mãe, ela acusa Rubem, seu irmão mais novo, de ter feito aquela brincadeira e ele afirma insistentemente que não foi ele, mas a mãe acaba encontrando os potes de tinta embaixo da cama dele e uma mancha de tinta verde atrás da orelha. O cachorro é levado para tomar banho e o pelo volta à cor normal.
No outro dia em pleno almoço o cachorro entra correndo e latindo outra vez, só que agora não havia mais pelo. Daniele acusa Rubem outra vez, mas não tem como provar, pois ele esteve o dia todo com a mãe no trabalho e ainda ajudou no almoço, passou o tempo todo na cozinha. Todos começam a pensar como aquilo poderia ter acontecido. Os meninos vão para o quintal, Rubem teve a ideia de procurar por pistas, mas não encontraram nada até ouvirem latidos de cachorro no quintal do vizinho. Aquilo era estranho, pois ali não morava alguém há anos. Então Daniele Puxou uma escada e encostou no muro, subiu e olhou para o outro lado.
Aquela cena era horrível: cerca de sete cães totalmente sem pelo, amordaçados e pendurados pelas patas traseiras em um varal. Da casa velha sai um homem com roupas velhas e com aparência de que não tomava banho há muito tempo. Ele traz consigo um cachorro grande amordaçado, o amarra no tronco de uma árvore e então pega uma máquina e começa a cortar os pelos do cão. Ao terminar ele o carrega em direção ao varal e assim percebe que um deles sumiu.
__ Onde ele está? Onde ele está? Onde ele está?
Daniele assustada com tudo aquilo percebe que ele estava atrás do cachorro dela. Desce a escada, puxa seu irmão e corre para dentro de casa. Lá conta tudo o que viu aos pais e imediatamente eles chamam a polícia. Conseguiram entrar no quintal sem problemas e capturaram o homem, enquanto era levado para a viatura ele gritava:
__ Deixem eles lá, todos eles. Eles vão matar todos vocês eu sei.
Foram informados de que ele havia fugido do sanatório há quatro dias e que ele tinha problemas desde a infância com cachorros. Com urgência, veterinários vieram cuidar dos cães, eles estavam muito debilitados. Naquele dia Daniele decidiu que iria ser veterinária.




13. Fora da rotina

 Acordar cedo, tirar o leite das vacas e das cabras, tomar café da manhã. A rotina de Geraldo, Rosa e a filha Alice. Como a menina estuda somente à tarde ela ajuda a mãe todos os dias no almoço. Mas aquele dia não iria ser igual aos outros. Por volta das nove horas ouvem-se dois tiros e o soar do berrante. Todos sabiam que aquele era código para dizer que animais tinham sumido.
__ Senhora! Senhora!__ Uma mulher entra na cozinha.
__ Que foi Zefa?!__ Responde Rosa preocupada.
__ Dois cavalos foram roubados. Primeiro pensamos que haviam fugido, mas depois vimos pegadas e roupas no lugar onde eles dormiam.
­__ E agora?!
__ Agora todos vão atrás deles. E pediram pra chamar a menina.
__ A não! Eu tenho prova final hoje e, além disso, é muito perigoso e se os ladrões estiverem armados?
Geraldo aparece e orienta a filha a ir fazer a prova. Mas ela vendo o desespero de todos, tanto pelo sumiço dos cavalos como pelos bandidos soltos na região, resolveu ajudar, pois quando ela decide ninguém consegue ficar na frente.
Parte dos peões, Geraldo e Alice vão a cavalo para a mata. Conseguiram encontrar pegadas que tinha quase certeza que era do Pangaré, que apesar do nome era o cavalo mais caro da fazenda. Pai, filha e mais dois peões vão atrás do pangaré, enquanto isso os outros quatro vão atrás do outro cavalo que é muito rebelde. Estes conseguiram encontrar o cavalo sozinho cerca de dez minutos depois e levaram ele de volta. Os outros ainda demoraram muito até encontrar.
Pangaré estava amarrado a uma árvore na beira de um riacho e próximo a ele um homem tomava banho. Alice o reconhece.
__ Pai! É aquele cara que apareceu na TV. Os assaltantes que entraram no banco ontem á noite. __ Sussurra.
Geraldo pede que Alice se afaste e então os peões armados rendem o bandido e o colocam amarrado no cavalo e o levam até a fazenda. Lá entraram num carro e foram até a cidade. Alice fica em casa com sua mãe e Jeferson, que mora na cidade, e foi mandado para cuidar da irmã e de sua mãe Rosa.
Na delegacia o assaltante é entregue juntamente com a bolsa onde estava o dinheiro. O cara acaba contando tudo: na fuga ele perdeu o controle do carro que foi bater na margem da estrada. Ele e o cúmplice conseguiram chegar a pé na fazenda e no estábulo pegaram os cavalos de madrugada. Ele muito cansado conseguiu chegar até o riacho, mas o outro desapareceu com metade do dinheiro.
Ainda na delegacia Geraldo recebe a notícia de seu filho que Rosa e Alice haviam sido rendidas pelo outro ladrão. Os peões, o patrão e os policiais vão para a fazenda. Mas quando chegam, o homem está estirado no meio da sala. Jeferson havia aproveitado um momento de distração e deu uma pancada na cabeça dele. Ele caiu, mas ainda estava vivo e foi levado para o hospital pela polícia e depois preso.
Depois desse dia turbulento a família resolve fazer um jantar comemorativo para todos na fazenda. Até a família do banqueiro apareceu.
__ Então foi por isso que não foi à aula hoje.__ Diz André o filho do dono do banco.__ Senti sua falta. Quer dizer, a turma sentiu. __ Ele pega na mão dela.
__ Ei! Já disse que não.
__ Será que um dia terei uma chance?
                       __ Talvez! Se parar com gracinha.__ Ela o deixa sozinho na varanda e volta para a festa.




12. Natália


__ Nossa! Mais um dia daqueles. Um dia eu saio desse muquifo.
__ Bom dia! Sil.
__ Bom dia! Carlos.
__ Me avisaram que vai mudar mais um pro meu quarto.
__ Pois é. Uma menina vem hoje pra cá. Espero que ela seja legal, senão não vai dar certo.
__ Calma, é mais uma pra limpar o banheiro.
__ A tá! Mai um problema. Deixa-me ir senão vou me atrasar.
__ Tchau!
__ Tchau!
Hoje tenho mais uma prova pra fazer, parece até que elas não acabam, é uma por dia. Ainda bem que eu só preciso de três pontos para não ir para a prova final nessa. Ai! Que ótimo esqueci-me de avisar pra Débora que teremos uma nova moradora no quarto. Também ela vive viajando e talvez nem note.
À noite quando cheguei em casa a menina já estava lá com apenas uma mala, digo menina pois ela parece ser nova. Convido-a para jantar, mas não aceita. Ela está muito nervosa. Sai à porta a toda hora. Por volta de dez horas ela vai ao banheiro e enquanto isso chega um cara de moto e para na porta do nosso quarto.
__ A Natália está? __ Ele pergunta enquanto dá uma olhada por dentro do quarto.
__ Ela foi ao banheiro, já deve voltar. Entra, senta.
__ Não, obrigado! __ Falou secamente. Nesse momento ela volta.
__ Vamos!
__ Só vou pegar minha bolsa. __ Eles saem.
Nossa! Será que ele é o pai dela? Ele aparenta quase uns cinquenta anos. O estranho é que só voltaram no outro dia e ela estava com uma marca roxa no braço. Eu preferi não perguntar nada.
Cerca de um mês se passou e muitas vezes Natália apareceu com escoriações pelo corpo. Para agravar ela quase não come, deve ser anoréxica. E ainda não descobri qual é o curso dela, ninguém a vê estudando. Muitas vezes ela estava chorando quando eu chegava em casa e sem sucesso tentei descobrir o que estava acontecendo. Resolvi deixar prá lá, se não queria a minha ajuda eu não ia me meter. Mas a situação se agrava a cada dia: além das feridas tinham os desmaios constantes. Cheguei a pedir ajuda a minha mãe que mora tão longe e fui aconselhada a continuar tentando descobrir qual o problema. Eu insisti tanto que acabamos brigando, mas nesse mesmo dia ela se cansou e me contou tudo.
Há alguns anos ela descobriu que tem anorexia. Revoltou-se com a família por aceitá-la não daquele jeito e a situação piorou quando descobriram que ela estava saindo com um cara mais velho, muito mais velho. Um período difícil para ela foi quando ele propôs que eles se mudassem para outra cidade e sem avisar ninguém ela veio com ele para cá.
Aqui começa a história assombrosa. Ela é menor de idade e nem estuda, o cara falsificou todos os documentos dela pra que morasse a aqui na casa (Aqui só podem morar estudantes do ensino superior, maiores de idade ou menores emancipados). Não queria que morasse com ele, possivelmente era casado. Na maioria das vezes que os dois saíam ele batia nela e falava coisas horríveis. Mas depois pedia desculpas. Ela resolveu terminar o relacionamento, já estava cansada. Ele, não satisfeito com o fim do namoro, apareceu aqui e fez o maior escândalo. Disse que ela tinha é que agradecer, que foi causa dele que ela tinha onde morar. E falou que se ela não fosse com ele na moto iria fazer um escândalo maior. E todo mundo sem acreditar viu ela subir na moto e os dois saírem pelo portão.
Mas ainda havia muita coisa por acontecer naquele dia. Transtornado o velho tentou furar o sinal vermelho e a moto bateu em outro veículo. Ele quebrou todos os dentes, mas como tinha dinheiro logo repôs. Já Natália por sorte escapou da morte, porém ficou com uma perna quebrada, fratura na coluna e na clavícula e o rosto quase totalmente desfigurado. Não tivemos como avisar a família, pois ela não quis dar nenhum telefone. Só que eles acabaram descobrindo o telefone da Roberta, uma das moradoras da casa que era da mesma cidade que eles e ela contou tudo. Eles ficaram horrorizados, pois o cara disse a eles que ela tinha apenas quebrado a perna e já estava bem, sendo que na verdade ela estava internada em um hospital. A mãe acompanhou Natália até a alta e conseguiu convencê-la a voltar para casa.
Alguns meses depois muitos não se lembravam mais do que aconteceu aqui no prédio e outras como eu, lembravam constantemente. Como será que ela está? Estará bem? Certo dia minhas perguntas foram respondidas. Um dos moradores da casa viu Natália recentemente aqui na cidade, outra vez com aquele homem na moto. Nossa! Como o ser humano é imprevisível.
__ Eita! Tô atrasada outra vez. Desse jeito eu não me formo e minha mãe me mata.
__ Aí! Olha por onde anda.
__ Desculpa! Deixa que eu pego suas coisas.
__ Obrigada!
Que ótimo. Agora aparece esse cara e topa em mim. Até que ele é pegável. Que isso Silvia! Foco nos estudos. E ele ainda faz o favor de olhar para trás.

11. Patricinha na roça

Quem diria que um dia eu iria gostar deste lugar. A Mariana deve estar morrendo de rir de mim. Mato, cobra, mosquito e nenhum shopping: essas foram algumas das coisas que tive que encarar quando minha família se mudou para o interior do Tocantins. Deixar a mordomia da cidade grande não foi fácil.
Meus pais sempre me deram tudo. Meu pai trabalhava em um banco e depois de muitos anos de trabalho ele começou a ficar muito estressado. Até que um dia decidiu se aposentar e mudar para uma cidade mais calma. No começo minha mãe não gostou muito dessa ideia e eu odiei. Não tivemos escolha, mau pai precisava de sossego.
Imagine uma patricinha como eu numa fazenda. Tive que ordenhar vacas, cuidar dos cavalos, cheguei a topar com uma cobra enorme. O bom dessa história toda é que meu pai, com medo de eu fazer alguma besteira, colocou um supervisor. Chamou o filho do dono da fazenda vizinha para me vigiar. No começo eu não sabia, descobri no dia que encontrei a cobra. Ele apareceu por trás de mim enquanto eu gritava loucamente e com uma vara jogou a peçonhenta longe. Fiquei paralisada vendo aquela cena, de tão nervosa quase caí porque minhas pernas não se moviam. O Gabriel teve que me levar no colo até em casa. Nossa! Que mico e pensa no desespero da minha mãe quando me viu naquela situação.
Depois de um ano consegui me acostumar com isso tudo aqui e eu mesma tiro as cobras do caminho. De vez em quando volto para São Paulo a passeio, reencontro velhos amigos. Ah! Eu e o Gabriel estamos juntos. Meus pais tentaram me fazer desistir, mas não conseguiram e agora me apoiam, pois perceberam que ele é um bom rapaz. E ainda investimos em um novo negócio: transformamos a fazenda em um ponto turístico. A vida aqui na roça é emocionante.

10. Indo para um lugar melhor

Mais uma vez Alessandra chegou atrasada na aula, isso começou a cerca de dois meses. Ou chega atrasada ou nem aparece. A professora Fabiana se lembra da aluna extrovertida e engraçada, que agora se senta no canto da sala e quase não fala com ninguém. Já tentou conversar com ela, mas não conseguiu descobrir nada, mesmo perguntando a colegas da menina e os pais.
Para desespero e choque de todo o colégio, Alessandra foi encontrada no quintal de casa pendurada numa árvore com uma corda no pescoço. Quando soube Fabiana foi direto para lá. Os pais da menina estavam desolados, a mãe estava com um envelope na mão: carta que a filha deixou. Ninguém tinha coragem para ler, até que a professora chegar. Ao ler acabou o grande mistério, mas outro se instalou.
“Mãe, pai que saibam que eu os amo muito, peço que me perdoem, mas o que fiz foi o melhor. Nunca contei a vocês nem a ninguém o que me aconteceu. Naquele dia que fui treinar vôlei e acabei me atrasando e perdi o ônibus. Tive que voltar andando para casa e morrendo de medo. No meio do caminho onde tem um trecho de mato um cara apareceu e me agarrou. Ele me violentou, eu nem consegui ver o rosto daquele desgraçado, apenas arranquei o cordão do pescoço dele.”
“Depois de ter passado por isso perdi a vontade de ir aos treinos, quase não ia às aulas. Por várias vezes tentei contar a alguém, mas não conseguia. Passei a ter medo dos homens. Não estava conseguindo viver. Por isso tomei a decisão de deixar de viver de uma vez. Não podia correr o risco de encontrar ele outra vez.”
“Por favor, continuem a vida de vocês, não fiquem tristes. Eu estou indo para um lugar melhor.”
Ao terminar de ler, Fabiana misturava as lágrimas à raiva que estava sentindo. Aconselhou aos pais da menina que não lessem naquele momento. No enterro de Alessandra a professora chorava muito e com o cordão na mão prometeu que não descansaria enquanto não vesse aquele criminoso pagar pelo que fez.
Chegando em casa Fabiana deu um longo abraço no filho:
__ Mamãe não vai deixar nada te acontecer._ O pequeno menino de oito anos deu um lindo sorriso.
__ Te amo mamãe.