“Correr, agora era a única coisa que Bernardo poderia fazer.
Acabou de assaltar uma garota que estava sozinha sentada em um banco
da orla do lago, ela reagiu e ele assustado por ser a primeira vez,
disparou a arma. Saiu desesperado e a deixou caída no chão, jogou a
arma na água e ofegante entrou no primeiro ônibus que viu. Quando
entrou em casa passou direto para o quarto e escondeu no fundo do
guarda-roupas a bolsa que roubou, entrou embaixo do chuveiro e ligou
a água gelada, sem tirar a roupa, depois se deitou na cama e pôs-se
a pensar no que tinha feito.” Todo suado, acordou no susto do
pesadelo que acabou de ter.
Cerca de uma semana depois, Jessie, o seu primo, lhe trouxe uma
novidade. A irmã da namorada dele queria conhecer seu primo, só que
tinha uma coisa que poderia atrapalhar, ela era rica. O que para Be
era uma questão muito grave, pois ele não acreditava que poderia
haver relação amorosa verdadeira entre pessoas de classes sociais
diferentes. Jessie não estava na mesma situação, a sua namorada e
a irmã dela eram filhas apenas da mesma mãe, o pai da outra que era
rico e já estava casado com outra mulher.
__ Cara, como você quer me arrumar uma riquinha. Você sabe o que eu
penso.
__ É, mas ela gostou de você, mostrei a sua foto. É roqueira
igualzinha a ti. Além do mais é apenas um encontro, nada demais.
__ O.k. Pode confirmar. Espero que ela seja gata.
__ Por que não compra um presente? Não precisa ser uma joia, nada
disso. Alguma coisa simbólica.
__ Você sabe que eu tô sem grana.
__ Eu te arrumo um agrado.
__ Mais uma vez com essa. Não quero nada que venha do Roberto.
__ Você é que sabe, a dica tá dada. __ A conversa foi
interrompida, quando Aline, a irmã de Bernardo, entrou no quarto de
surpresa.
O pai deles estava tendo um enfarte e foi levado para o hospital, mas
o hospital público daquela região estava superlotado, o jeito foi
irem para um particular. Lá ele ficou por um dia em tratamento e
outro em observação e teve alta. A conta saiu caríssima e a
família não tinha condição nenhuma de arcar com esses custos. A
mãe era garçonete em um restaurante pequeno, o pai já estava
aposentado e não conseguia emprego pela idade que já tinha, Aline
ainda estava no ensino fundamental, Bernardo tinha acabado de sair do
reformatório e estava com dificuldade em conseguir emprego. O
hospital ainda deu o benefício do pagamento ser feito em parcelas
mensais, ainda assim o valor estava muito alto. Jessie chamou o primo
para uma conversa em particular e apresentou a única solução
viável naquele momento.
__ Eu falei com o Roberto. Você pode fazer um servicinho para ele e
se for bem, a dívida com o hospital será responsabilidade dele.
__ Não, não. Já fiquei muito tempo preso por causa dele. Eu fui o
único olheiro que a polícia encontrou lá no morro. Jurei que não
iria para essa vida de novo.
__ Mas o caso agora era outro. Olha o que está em jogo.
Passaram-se cinco três dias e Bernardo os usou para pensar. Concluiu
que não teria saída e foi outra vez para o mundo obscuro que nunca
deveria ter ido. Morro do Pombo Cinza, onde roberto era subchefe da
quadrilha de traficantes de drogas. Ele usava crianças e
adolescentes no seu negócio, como “mulas” fazendo transporte
mais raramente e como olheiros prestando atenção na presença da
polícia na área, avisando com uma pipa fazendo movimentos. Be
estava fazendo esta função quando foi preso e ficou retido por
dezesseis meses até completar de dezoito anos.
As ruas do morro eram bem estreitas e escuras em certos pontos e em
um desses estava a “boca”. Na entrada tinha dois homens armados,
um em cada lado da porta que estava aberta. Após a porta que estava
aberta. Após a porta tinha uma pequena sala com uma mulher atrás da
mesa.
__ Entre garoto ele está te esperando no escritório.
Seguiu o corredor e entrou no escritório, que estava cheio de
exemplares de armas expostas nas paredes. Roberto estava sentado
atrás de uma maleta encima e um contador de dinheiro.
__ Você não serve mais para sua antiga função, seu rosto já está
conhecido nas ruas. Vou te passar algo diferente, mais perigoso, mas
vou te pagar por ter feito um bom serviço no passado. Vai pra rua
fazer novos clientes e caso a situação se complique pode usar este
brinquedinho aqui. __ Falou mostrando um revólver.
Naquela mesma noite Bernardo foi se encontrar com os caras que
estariam com ele, mas área era estranha, pois era a parte central da
cidade, ele perdeu quando chegou na orla. Avistou uma garota sentada
em um banco e foi pedir informação para ela. Ele estava encapuzado
e não dava para ver o rosto, chegou bem perto, mas ela se assustou e
começou a gritar. Bernardo tapou a boca dela que tentava se soltar
de todo jeito. Um dos capangas de Roberto chegou bem na hora, a
menina se soltou e correu para ele pedindo ajuda. Tropeçou e se
agarrou na blusa, que escorregou e fez o capuz cair e revelar o rosto
do cara.
__ Mas que droga! Quem é essa garota?
__ Não sei. Só vim pedir uma informação e ela se assustou.
__ Agora já era. Ela viu meu rosto.
Não cara. Não faz isso.
O pedido foi inútil, o bandido sacou a arma e atirou no peito dela,
que caiu no chão. Bernardo correu até ela e a segurou deitada sem
saber o que fazer. O outro cara o puxou pelo braço.
__ Vamos, vai ficar aí? A polícia tá área e já já tá aqui.
Quer ser preso de novo?
__ Tá louco cara?! Vai você, eu vou ficar, eu me viro.
__ Você é quem sabe. O que importa é que não sobre pra mim. __
Falou e saiu correndo.
Uma ambulância foi chamada e demorou vinte minutos para chegar. Ele
preferiu não ir, pois estava com uma arma e não queria se arriscar
mais do que já tinha feito. Meio flutuante, foi para casa, que para
sua sorte já estavam todos dormindo e, pelo menos naquele momento,
não teria que dar explicações a ninguém. Nessa noite ele não
dormiu pensando no que tinha acontecido. A dívida que tinha que
pagar, a falta de emprego e agora uma pessoa que poderia estar morta
por sua culpa. Queria saber ela estava, mas não tinha como.
Quando amanheceu eles tiveram uma surpresa. Um pastor de uma igreja
vizinha chegou na casa deles e lhes entregou um envelope. Ele disse
que ali tinha o valor da primeira parcela da dívida; a vizinhança,
os moradores, comerciante e as igrejas da área reuniram aquele
dinheiro para ajudá-los. Bernardo e a família receberam o presente
com lágrimas e ele mesmo resolveu ir até o hospital para pagar.
Eles até deram um pagamento feito antes da data. Mas a surpresa
maior ainda não tinha acontecido; quando chegou em casa ele recebeu
a visita de Jessie e a namorada dele, Carla.
__ Minha irmã era pra ter vindo com a gente, mas aconteceu uma coisa
terrível com ela. __ Disse Carla e começou a chorar.
__ A Camila foi baleada ontem à noite. Ela estava lá na orla do
lago. Está com a vida por um fio. __ Falou Jessie, sem saber o que
aquela informação significava para para o primo, que ficou
paralisado. Estávamos no hospital agora, mas a Carla não estava bem
e estava muito cansada, então a trouxe para cá. Os vizinhos lá de
casa estão fazendo uma reforma e muito barulho, ela não ficaria bem
lá.
__ Não. Tudo bem. __ Falou Bernardo voltando a realidade. Mas agora
estava com os pensamentos a mil. Será que ela sobreviveria? Se sim,
será que reconheceria seu rosto e esta história entre eles que nem
tinha começado acabaria.
Os dias que se seguiram foram agonizantes. Roberto mandou um recado
dizendo que ele não prestava para o trabalho, mas que o deixaria em
paz se ele ficasse calado e ainda assim estaria de olho nele. Camila
não mudava seu quadro, permanecia sedada. Em um desses dias Bernardo
pediu para ir visitá-la, até então ele ainda não a tinha visto
direito. No horário de visitas Carla o levou até o quarto onde a
irmã dela estava e o deixou lá. Ele ficou olhando para a menina na
cama por vários minutos, depois se aproximou e pegou em sua mão.
Sem ele perceber, pois olhava para a janela, ela foi abrindo os
olhos.
__ É você! __ Ele abriu os olhos no susto ao ouvir aquilo. __ É
você!
Pensando que ela o havia reconhecido daquela noite, Bernardo soltou
sua mão e saiu apressado e em seguida Carla entrou com muita
alegria, sem perceber o que estava acontecendo. Para ele aquilo tudo
estava sendo mais difícil porque não contou nada para ninguém, nem
para Jessie. Ele passou em casa, pegou o skate e foi para a rua dar
umas voltas para esfriar a cabeça e voltou no fim da tarde. Só
tinha a mãe em casa preparando o jantar, sentou no sofá por uns
dois minutos e resolveu ajudá-la na cozinha.
__ Notei você diferente nesses dias filho. Está com algum problema
que não saibamos?
__ Não se preocupe com isso mãe, eu resolvo tudo. Lembra do nosso
combinado? Todo problema tem ser resolvido em família.
__ Olha mãe... Já fiz vocês sofrerem demais, só quero que fiquem
em paz. Nós temos outras preocupações agora.
__ A dívida... O meu patrão disse que vai me dar um aumento por ser
boa funcionária, mas todos sabem o porquê na verdade. É para nos
ajudar.
__ Que bom.
__ Se cuida eim. Não vá se meter com aquela gente outra vez. Se for
preso agora, vai pra cadeia de verdade.
Depois de terminar o preparo do jantar Bernardo foi para o quarto e
ficou lá até a chegada de Jessie e mais dois amigos.
__ Nós vamos lá no boteco jogar sinuca, quer ir? __ Falou Paulo.
__ Não. Tenho que estudar para o teste. Preciso passar nessa prova
para conseguir voltar para a escola.
__ Que isso cara?! Sabemos que está com problemas, mas você precisa
voltar para a vida. __ Disse Otávio.
__ Há dias você não sai com a gente. __ Reclama Jessie.
__ Eu tô com a cabeça cheia. Não quero sair agora.
__ O.k. Nós vamos, mas voltamos depois. Ah! A Carla disse que vem
aqui amanhã conversar com você. É alguma coisa sobre a Camila.
Tentou estudar, mas não conseguiu. A todo momento vinha o
pensamento: qual assunto Carla queria com ele. Será que a irmã
contou que o reconheceu, que ele estava lá na noite em que ela foi
baleada. Estava com medo de ser preso de novo, mesmo não sendo ele o
autor do disparo. Estava com medo da quadrilha de Roberto, dele mudar
de ideia e resolver fazer alguma coisa com a sua família. E ainda
tinha um fato importante: o tiro que Camila levou foi porque viu o
rosto do capanga da quadrilha e agora ela estava viva, pronta para
denunciar.
Quando Carla entrou na sala, Bernardo pensou que estava morto. A
convidou para conversarem no fundo do quintal onde ninguém
incomodaria naquele momento. O coração estava quase saltando.
__ Camila está bem, se recuperando, agora sem sedativos. Ela me
pediu para te dar um recado. Quer que você vá vê-la e que não
importa o que tenha acontecido, já é passado.
__ Ela te contou? O que aconteceu.
__ Não. Apesar de eu ter insistido. Acho melhor assim, vocês
precisam de privacidade. Mas tem uma coisa. Por favor, não a faça
sofrer. Ela já levou muita pancada da vida e não precisa de mais
uma.
__ Quando posso ir?
__ Agora mesmo se quiser, eu te levo.
__ Quero sim.
Camila estava deitada. Quando a sua visita chegou, ela inclinou a
cama e ficou sentada. Bernardo entrou devagar, sem dizer nada, puxou
uma cadeira e sentou ao lado da cama. Ainda em silêncio ele não
conseguiu olhar nos olhos dela, que pegou uma de suas mão e segurou.
__ A culpa não foi sua. Não foi você que atirou.
__ Eu nem fui junto na ambulância. Estava com medo.
__ Mas você me salvou. Ficou lá comigo até a ambulância chegar.
__ Por que está sendo tão boa assim? Isso é mais torturante ainda
pra mim.
__ Gosto de você.
__ Mas nem me conhece.
__ Conheço. Pelo menos pelo que o Jessie fala.
__ Tô preocupado com você. Aquele cara pode voltar para terminar o
que começou.
__ Não se preocupe. Falei para todos que não me lembro de quem
atirou em mim e que ele estava sozinho.
__ A polícia pode descobrir.
__ Eles não têm pistas, eu sou a única testemunha.
__ Obrigado!
__ Eu sei. Carla e Jessie me contaram. Você pode ser preso
novamente. Eu só tenho um pedido para fazer.
__ O quê?
__ Quando eu sair daqui vamos ao cinema? __ Perguntou ela sorrindo e
também sorrindo ele respondeu:
__ Claro. Dessa vez um encontro de verdade.