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quarta-feira, 3 de abril de 2013

21. Arnica



Ninguém me explica

Como surgiu quem criou

O velho gel de arnica

Que todo o mundo já usou



Suas costas estão doendo?

Passe gel de arnica

É o que recomendo

Fica a dica



Os ombros estão cansados?

Massageie com gel de arnica

Que logo terá passado

É o que mamãe indica



A cabeça está latejando?

Passe arnica também

E logo você estará pensando

Em indicar para alguém




20. Aniversário de um estranho



Domingo 31.03.213



A música toca, um xote legal. Os pés dela balançam com ritmo, está com vontade de dançar. Mas ela está morrendo de vergonha e medo, afinal alguns dos convidados daquele aniversário são conhecidos, a maioria não é. Há mais homens que mulheres na festa, só que ninguém a chama. Ela está frustrada e com raiva, pois aquela que se diz sua amiga, a deixou dizendo que voltava logo e ao olhar no relógio percebe que já se passou duas horas.

O DJ muda para eletrônica e ela se sente bem e levanta para dançar, ainda que um pouco receosa. De vez em quando vai até a mesa e pega um pedaço de bolo e enche o copo com refrigerante. A música é mudada para tecnobrega e ela novamente se senta. Só que dessa vez os conhecidos começam a chama-la para dançar, mas não aceita. Ela está com vergonha e na verdade prefere dança solo.

Assim a festa termina. A barriga entupida de bolo, refrigerante e cachorro quente. O nome e rosto de alguns convidados na cabeça. Balões na mão. O bombom foi esquecido na mesa, alguém vai ser feliz com ele. Ela dançou com ninguém. A amiga não voltou. Ainda bem que a festa era na casa de um vizinho. 



19. Sala X praia


Domingo 31.03.2013

A história se repete desde a segunda, terceira, quarta série. Na quinta é só ter uma aula chata e eu me junto a mais alguns colegas e vou para a praia. Hoje aula a de matemática mal começou e Patrícia já veio me cutucar para sair. Nós sempre fazemos assim: cada um sai separadamente e já fica combinado de alguém que ficar levar nossos cadernos e depois nós pegamos.
É quase como missão de agente secreto, não podemos deixar ninguém que esteja no corredor ou no pátio perceber para onde estamos indo. Se perceber é enfiar logo banheiro ou ir para o bebedouro. Sorte nossa é que a escola tem uma parte do muro que fica escondida atrás dela e com espaço para qualquer um se esconder ou usar de banheiro. Que nojo! O muro já tem uns buracos que cabem pés e mão, no jeitinho para os fujões.
Saltamos e ganhamos a rua. Estamos Patrícia, Daniela, Pedro e eu. Descemos e subimos as ladeiras esquecendo a possibilidade de nossos pais nos verem. Chegamos ao rio. Eu caio na água e sempre com nado cachorrinho, ainda estou aprendendo a nadar. Sento na areia pensando no que tinha feito e penso ainda no vou fazer, pois tenho que explicar de onde surgiu aquela roupa molhada. Já havia conseguido entrar escondida em casa uma vez, mas nas outras não deu. Pior ainda foi o dia que nos esquecemos de pedir pra alguém pegar nossos cadernos e nossos pais foram chamados na escola. É melhor eu banhar mais porque não sei o que me espera em casa. Arroz e feijão ou cipó de malva e gervão.







18. Querido diário


Gostaria de saber como começar. Estou naquele momento que muitos devem sentir. Sinto vontade de simplesmente largar tudo e voltar para casa. Tenho momentos de autoisolamento e sinto vontade de chorar, mas não consigo. O jeito é escrever em meu diário. Pra melhorar a história, a pessoa que poderia me ajudar está na mesma “foça”, minha melhor amiga. Não sei que rumo nós vamos tomar, mas podemos sobreviver a isso.
Às vezes o coração acelera, depois mergulho em um poço profundo e sem luz em minha mente. Tristeza, angústia, solidão, falta de um motivo para viver. Em alguns momentos chego perigosamente a entender porque muitas pessoas e matam. Mas não posso pensar em fazer esse tipo de coisa. Minha família não ficaria bem e pior ainda, sei que os suicidas não herdarão o reino dos céus. Lá no fundo ainda consigo sonhar com um futuro.
Tenho grande dificuldade de expressar meus sentimentos. Ninguém sabe a respeito do que escrevo aqui. Sempre quando me perguntam se estou bem, respondo que sim e ainda dou um sorriso, não quero preocupar ninguém. Mas às vezes quero contar, preciso contar, mas não consigo, acabo travando e até digo algo totalmente diferente só pra não passar de doida.
Estou odiando não consegui fazer as coisas que gosto. Desenhar, jogar vôlei, passear, andar a pé pela cidade, estar em meio a paisagens belas apenas com o som da natureza.
Esses sentimentos, esse estado de espírito. É horrível. Espero não passar não passar por eles outra vez. Isso chega a afetar demais o corpo, estou tremendo agora.
Que vontade enorme de estar em casa com minha mãe, meu pai e minha irmã. Mas nesse momento não é possível. Tenho que pensar provas, trabalhos, notas, dinheiro, isso é muito estressante. É, em grande parte, a causa desse meu estado.
Não tenho ombro para chorar. Nem sei se tenho lágrimas. Esse é um problema que tenho desde criança, de tanto segurar choro acabo não chorando nos momentos necessários. A angústia e a tristeza ficam presas me corroendo.
Caramba! Não sei o que fazer para isso passar. Estou no estágio de sentir raiva da alegria dos outros, mas eles não têm culpa, ou têm inconscientemente. E ainda há coisas que não consigo colocar aqui, não ainda.
Que Deus nos ajude, a coisa tá feia.


 

17. A vida é cheia de surpresas



Eu achava que já tinha problemas demais. Sempre vivi nesta pacata cidade com meu emprego de professor na única escola particular. Nunca casei, ainda moro com a minha mãe e não consigo manter um relacionamento por muito tempo.
Estou quase realizando meu sonho. Tenho apenas uma graduação em geografia, mas o que quero mesmo é cursar administração. Pelo gabarito tirei uma nota muito boa só que ainda falta a nota da redação pra sair o resultado final. Aí poderei sair daqui e ter minha própria casa. Sonhar é bom, mesmo que isso aconteça ainda tenho que cuidar da minha mãe, ela está muito doente.
Minha nova dor de cabeça se iniciou quando começou o novo semestre. Uma nova aluna entrou em minha turma vinda de outra cidade. Assim que a vi parece que uma energia muito estranha me atravessou, nunca havia sentido aquilo. Depois de algumas semanas com essas sensações descobri o que estava acontecendo: estava apaixonado. Fiquei desesperado, aquilo não podia acontecer. Apesar de Laysa já ter dezoito anos eu já tenho trinta e dois. E o problema maior é que sou professor dela, um relacionamento entre seria um escândalo, isso acabaria com a minha vida e minha carreira. Mas... Quem pode mandar no coração?
Fiz de tudo para ela não perceber, e o máximo para conseguir dar aula normalmente. Toda vez que a via conversando com algum garoto já ficava com raiva, pensava que estavam tentando dar encima dela. Talvez estivessem mesmo, ela era linda. Um dia no calor de um debate em aula eu dei a maior bandeira, sorte que ninguém percebeu.
__ Qual é o seu problema? Parece até que está me perseguindo. __ Foi o que me disse.
Para meu espanto, cerca de alguns dias depois fui convocado a comparecer a diretoria. Ótimo, dessa vez iria levar uma advertência ou até ser demitido. Chegando lá vi uma mulher muito bem vestida que conversava com a diretora.
__ Sente-se_ Diz diretora Miranda.                        
Eu sentei e aí elas me contaram que aquela senhora estava procurando um professor particular para sua filha. Pensei em não aceitar, mas minha mãe precisava de remédios, aceitei a proposta. Quando falaram quem era aluna quase caí para trás. Medo, ansiedade, alegria. Foi que senti naquele momento. Era Laysa.
As aulas aconteciam na casa da família. O primeiro dia foi normal. Uma empregada sempre estava por perto, parece até que estava para nos vigiar. Mas um dia a empregada teve que se ausentar e a garota se transformou na minha frente, de uma aluna com dificuldade a uma aluna brilhante. Eu fiquei sem entender, ela disse que era tudo de propósito, tirava nota baixa porque queria. O motivo me deixou feliz e ao mesmo tempo triste. Ela estava apaixonada por mim. Mas estava estragando seu futuro por isso.
Não sabia o que fazer, nunca havia estado naquela situação. Naquele dia dei um jeito de escapar e fui embora. Pedi conselhos a minha mãe. Tomei uma decisão, iria para as aulas particulares e conversar francamente com ela. Apesar da insistência da mãe não tinha como continuar. Chegada a hora da conversa, não consegui falar nada, apenas sentei e chorei. Ela sentou ao meu lado e me abraçou. Quando consegui parar de chorar aconteceu algo inesperado, ela me beijou, nesse momento parece que o tempo parou.
__ vai me esperar?
__ Sim, eu vou. Mas estude, por favor.
__ Assim que me formar eu vou para onde você estiver.


Para minha sorte minha mãe estava bem no dia em que viajei para fazer o vestibular. Meu desespero foi quando voltei, ela teve uma piora e foi internada, quase não aguentei quando o médico disse que não resistiria àquela noite. Infelizmente acabou sendo verdade, ela morreu o passar da meia-noite. Recebi licença do colégio por alguns dias, não iria conseguir dar aula.
Meses depois saiu a lista de aprovados, fui o décimo sexto, mas passei. Assim que passou o Réveillon me mudei, claro me despedi dela, não sabia se a veria outra vez. Ainda faltava um mês para o início das aulas, usei esse tempo para procurar um emprego. Encontrei um totalmente fora da minha área, pois está em falta de vagas para professores de escola particular, mas ser subgerente de petshop não era tão ruim assim.
No primeiro dia de aula estava muito ansioso, cheguei à universidade mais de uma hora antes da aula, então aproveitei para conhecer mais o campus. Passei pela biblioteca e cheguei até a praça de alimentação. Quando estava saindo da praça alguém me segura pelo braço por trás de mim.
__ Regrediu o nível eim! __ Reconheço a voz e me viro.
__ De professor a aluno outra vez.
__ Estudar é preciso.
__ É... Será que agora temos uma chance?
__ Quem sabe. A vida é cheia de surpresas.
__ E essa surpresa foi boa?
__ Como não poderia ser?