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terça-feira, 8 de abril de 2014

27. Donzelo em perigo

 Flavinho é um príncipe diferente. Ele nasceu sendo o vigésimo sexto filho do rei Marcos com sua terceira esposa. Ninguém prestava muita atenção nele, então não notaram que ele não era igual aos outros príncipes. Não atirava flechas, não andava a cavalo, não praticava esgrima, muito menos salvava donzelas em perigo. Preferia pintar quadros, cuidar dos pequenos animais do castelo do reino de Pistal, era responsável pela beleza e vida dos cabelos de suas nove irmãs, quando via um inseto saía correndo. Mas ninguém estava nem aí, prestavam atenção em seus próprios afazeres.
Um dia Flavinho foi atrás de uma ovelha que se perdeu. Acabou entrando em uma área de mata fechada, densa. Nela havia todo tipo de animais, inclusive um perigoso urso que encontrou o rastro do príncipe. O animal deu um urro estridente e sua presa deu grito agudo e com todo o seu tamanho ele foi chegando perto, mais perto, mais perto. Estava quase cheirando o pescoço de Flavinho que estava paralisado. O urso levantou-se em duas patas e ficou com três vezes a sua altura normal. “Estou morto”. Pensou ser seus últimos instantes.
Pow! Ouviu-se um estouro, o urso fugiu assustado e Flavinho caiu de joelhos sem forças nas pernas. De repente começou a ouvir um som incompatível com aquela situação: uma gargalhada, com voz feminina.
__ Oh! Um donzelo em perigo. __ Fala a garota com vestimentas masculinas, montada a cavalo e com uma espingarda cano duplo na mão. __ Vamos rapaz, sua família já deve estar preocupada.
__ Obrigado! Mas ninguém deve ter percebido que eu saí.
__ Que drama vossa alteza.
__ Quem é você? Nunca te vi no castelo. Como sabe quem sou eu?
__ Sou Mitra de Jar, filha do chefe da guarda do castelo. Eu estava atrás daquele urso quando te achei. Aliás, sua ovelhinha está aqui.
__ Ah! Certo. Obrigado!
__ Mas que a cena foi engraçada, isso foi.
__ É. Agora percebo que realmente deveria ter ido para as aulas de auto-defesa e aprendido a usar uma arma.
__ Mas ainda tem tempo. Se quiser eu te ajudo.

E foi assim que Flavinho aprendeu algo útil para sua vida, mas sem deixar de fazer o que gostava. E sempre com sua nova amiga Mitra.

26. O gigante de ferro

 Em um dado momento no planeta Terra, humanidade vive uma realidade diferente. O sistema econômico faliu, a tecnologia se tornou bem para poucos. O planeta conseguiu se recuperar dos desastres causados pelos humanos, agora ele é dois terços azul e um terço verde mais alguns desertos de controle da própria natureza. Mas uma organização detém o poder do controle do mundo. A Quartix.
A família de Tábata vive em um lugar entre montanhas, no país de Tocant no hemisfério sul. Eles sobrevivem da agricultura como as muitas outras famílias que vivem lá. Mas em um dia o gigante de ferro (robô de cerca de 23 metros de altura, que são protetores feitos pela Quartix, pois a nova selva criou animais muito perigosos para os humanos) daquela região perdeu o controle. Muitos tentaram desativá-lo, mas tinham apenas armas rústicas.
Crianças começaram a desaparecer do vilarejo, o gigante os estava capturando. Ele obrigava a todos a tocar instrumentos musicais e quando ele não gostava atirava a vítima em um precipício. Tábata estava entre eles, mas cada vez que a criatura chamava alguém, ela se escondia. Atrás de outra pessoa, de uma árvore, de uma rocha. Mas acabou sendo descoberta.
__ Tábata é a sua vez. __ Disse o gigante. __ Não adianta mais se esconder.
Ele deu um violoncelo para ela tocar. Conseguiu um pouco, mas não foi o suficiente, a fera ficou furiosa, a agarrou e a segurou pendurada pelos pés no abismo. Ela gritou o quanto pode, até soltar uma nota mais aguda que a lembrou da canção que cantava com sua mãe na lavoura e começou a cantar. O gigante já tinha soltado uma de suas pernas, só que parou de repente e a colocou de volta no chão. Tábata continuou a cantar e como mágica, encantou. Na verdade as ondas causadas pela canção reativou as funções avariadas do robô, que voltou a funcionar normalmente.

Os que foram jogados no abismo caíram em um lago de lama e lôdo, foram salvos por agentes da Quartix e voltaram para suas famílias. Depois a vez de Tábata e seus companheiros, que pode voltar a cantar com sua mãe e agora com seus novos e antigos amigos.

25. A avenida principal

 Esta é a história da amizade de três garotas. Fernanda e Maria eram irmãs, elas nasceram em Tocantinópolis-TO. Telma se mudou de Palmas e foi morar perto da casa das meninas. Elas se conheceram em um dia que a luz acabou e elas foram brincar na rua, que era a principal da cidade, onde também estava o cemitério logo ao final.
Passaram-se os anos e na adolescência as três continuaram amigas. Dividindo segredos dos romances, as brigas porque duas delas se apaixonaram pelo mesmo garoto. Fernanda se casou aos 24 anos, Telma aos 27, três anos depois de Fernanda. Maria demorou ainda cinco anos para se casar e teve duas filhas. Telma teve duas meninas e um menino. Fernanda teve dois filhos. Minha irmã Andréia e eu, Cláudio.

Minha mãe morreu com 78 anos de causas naturais, como dizem os médicos, eu digo que foi de velhice mesmo. Minha tia foi seis anos depois e foi enterrada ao lado da irmã. Dois anos atrás foi a vez da Telma. Minha irmã disse que tinha espaço sobrando, então a última amiga foi enterrada ao lado das outras. E hoje estão lá as três juntas na avenida principal, mas quem é que sabe.

24. Vovô Bile

 Todo ano eu passo o verão na casa do meu avô Bile, o pai da minha mãe. Já tem cinco anos que a minha avó Margarida morreu. Na época eu tinha 6 anos, minha mãe não deixou eu ir, na verdade não me disse o que tinha acontecido. Só descobri três meses depois quando minha mãe tentou me impedir de passar as férias no sítio.
Hoje temos apenas meu avô, o Luiz e a Adriana, filhos dos ajudantes do meu avô, e eu. Todo verão inventamos novas brincadeiras. Ano passado tivemos competição de contação de histórias de terror, que foi vencida todas as noites pelo Bile. Esse ano ele teve a ideia de fazer uma caça ao tesouro. As pistas estariam espalhadas pelo sítio em qualquer lugar. Por segurança a brincadeira só era válida durante o dia para não nos perdermos.
As regras foram passadas no primeiro dia à noite. Diferentes objetos deveriam ser encontrados e juntamente co eles estariam as pistas do próximo objeto. Adriana perguntou quando e como começaria o jogo.
__ Calma. Amanhã vocês vão saber. Agora vou contar a história do dromedário que queria ser um camelo...
No outro dia quando acordamos tinha um bilhete na mesinha de cabeceira. Fiquei super curiosa e o peguei para ler. “Limpo aquilo que consome todos os dias. Aquele branquinho, pequeno que vem dentro de uma casca amarela e levinha. Ele tem um casamento perfeito com um sujeito que ora está listrado ora está vermelho. Quem sou eu?”
__ Caramba! O avô pegou pesado.
Comecei a procurar em todos os lugares sem ao menos saber o significado do enigma. Revirei o meu quarto e Bile chegou no momento em eu jogava as roupas do baú encima da cama.
__ O que está fazendo garotinha?
__ Estou procurando o que está no bilhete. Ainda não sei o que é, mas vai que encontro mesmo assim.
__ Que ânimo. Antes de escovar os dentes, tomar o café. Vamos fazer assim: você escova, come, arruma essa bagunça, aí depois pode explorar o sítio.
__ Ah não! Vô.
__ Anda mocinha!
Depois de todos tomarmos café da manhã, partirmos para nossa aventura do dia. Essa parada serviu para eu pensar melhor sobre a pista e acabei descobrindo o que é. A coisa branca é o arroz que casa com feijão. O que limpa o arroz é o pilão. Fui correndo para o barracão onde são guardadas as sementes, pois lá tinha um, mas não achei nada. Sorte que lembrei do pilão que fica perto das bananeiras, que é movido à água. Procurei bastante até encontrar um envelope em um saquinho, escondido embaixo de uma pedra perto do pilão. Abri o saco e o envelope, tinha uma moeda grande prateada, uma moeda antiga datada de 1876. Fiquei atenta à próxima pista.
“Algum maluco já fez sorvete de mim. Muitos acham estranho. Minha primavera é inverno. Estou no norte, nordeste e centro-oeste. Posso ser simples e às vezes arisco. Muitos gostam de mim, mas muitos também não me suportam, enjoam ao sentir meu cheiro. Quem sou eu?” Essa foi muito fácil. Obvio que é o pequi. O próximo objeto e a próxima pista devem estar no pequizeiro, o problema é saber qual. Temos um pomar deles. Ah! Já sei. Meus avós escreveram as iniciais deles em um dos pequizeiros e atrás dele eu fui. No pomar tinham cerca de trinta pés de pequi, alguns eram diferentes seus galhos pareciam cordas penduras. Andei bastante até encontrar um B e um M entalhados em um tronco, e lá estava um saquinho com outra moeda (esta era de ouro de 1892) e a próxima pista.
__ Gabriela vem me ajudar no almoço. __ Dona Joana gritou da janela da cozinha. Ela é a mãe do Luiz e da Adriana.
__ Já vou. __ Seria bom dá um descanso e fui ajudá-la.
Depois do almoço nós três voltamos para a aventura. Cada um foi desvendar o enigma dos bilhetes. No meu estava escrito assim: “Faço bem e às vezes faço mal. Pintou sujeira, estou lá. Na maioria das vezes sou duas caras. Quem sou eu?” O vovô dessa vez facilitou as coisas, a peça do enigma é uma enxada. Como não saberia, se foi a coisa que me atormentou por muito tempo. Fui até o quarto das ferramentas e procurei enxada por enxada e encontrei em uma que estava encostada atrás da porta. Uma moeda de bronze de 1746 e outro bilhete. “Pena que a brincadeira acabou, mas o tempo está rolando tic tac tic tac.” Fui correndo atrás de todos os relógios da casa, parece que o Bile fez a mesma coisa com os outros, pois nos encontramos diversas vezes correndo pela casa. Encontrei o último objeto atrás do relógio do meu quarto, uma moeda de prata de 1627 e um bilhete diferente. “Espero que tenha tido uma grande aventura. Nos próximos dias terão boas surpresas. Te espero no lugar de sempre.” Fiquei super curiosa, tive que esperar até a noite.
Em volta da fogueira todos mostraram suas conquistas, eu minhas moedas, Luiz as figurinhas antigas e a Adriana as joias da minha avó. Bile disse que nós poderíamos ficar com os objetos, que eles valiam muito, mas só poderíamos usar quando fossemos mais velhos. Terminamos a noite imaginando o que o vovô estava aprontando para os dias seguintes.

segunda-feira, 24 de março de 2014

23. O TOC de João

João poderia ser um adulto normal se na sua infância não tivesse desenvolvido TOC. Ele toma no mínimo seis banhos por dia, sem esponja, apenas com sabonete, pois tem medo dos micro-organismos que crescem nela. Passa o sabonete puro na pele, duas três rodadas no mesmo banho. Nunca deixa louça suja na pia e sua empregada tem que lavar a casa e passar aspirador de pó todos os dias, nunca espanador. Só come a comida feita na hora e em casa, pois desconfia sempre da higiene dos restaurantes e lanchonetes. Quando não está usando lenços para pegar nas coisas, as mãos estão com luvas. Até ao cumprimentar evita o toque direto, um abraço é um sacrifício e algo raro. Sempre leva um pequeno frasco de álcool gel em sua maleta.
Ele é o advogado que mais gasta com o serviço de limpeza do escritório. Mas seu chefe nem reclama, sabe que é o que mais rende para a empresa. João é um ótimo profissional. Seus clientes o adoram apesar do seu jeitinho peculiar. O juiz Hernandez já se acostumou com o advogado que pega algumas provas com uma pinça, mesmo às vezes sendo desnecessário. Apesar de já ter passado por situações desagradáveis ele nunca se preocupou em procurar a ajuda de um psicólogo, já estava acostumado.
Sua vida amorosa sempre foi um desastre. Até os trinta e quatro anos três namoradas, a última foi a que durou mais tempo, dois meses. Nenhuma conseguiu conviver com as manias de João. Todo o cuidado que tinha com o contato com as outras pessoas, tinha com as namoradas. Ele conseguiu ato de usar antisséptico bucal depois de um beijo e muitas vezes na frente delas. Sua situação começou a tomar um ritmo diferente quando Samanta Temaraque, tenente da polícia federal, apareceu em sua vida. Eles se conheceram a partir de um caso que ela estava investigando e um dos clientes dele estava envolvido como suspeito e João conseguiu provar a inocência dele.
Samanta acabou se interessando por aquele estranho advogado e ele por ela. No começo da relação as manias ainda imperavam. Mas ele percebeu que essa era diferente das outras, estava sentindo algo que o fez querer mudar. Começou a frequentar um psicólogo, o progresso foi lento, mas teve um grande avanço. João não usa mais antisséptico depois do beijo, usa apenas o lenço de vez em quando e as luvas foram jogadas fora. Escolheu um restaurante para frequentar com Samanta, e claro sempre vai até a cozinha conferir e fiscalizar o preparo dos seus pratos. Ainda toma vários banhos por dia, apena com sabonete. Ela não implica com ele, sabe que seu comportamento não é de propósito, não é culpa dele. Os dois decidiram se casar. A cerimônia foi realizada sete meses depois de terem se conhecido. Nasceu Leonardo quatro anos depois. Samanta não deixa o marido dar banho no bebê. Toda vez que ele fez isso quase matou o menino esfregando sabonete no rosto dele.

22. O urucum que era maçã



Comprei algumas maçãs no mercado. Gosto mais daquelas amarelas, nem verdes nem maduras demais. Enquanto comia uma delas, eu olhava para o quintal pela janela e tive uma ideia. Nós temos fruteiras de diversas espécies, por que não ter uma de maçã? Assim que terminei de comer retirei quatro sementes, peguei um copo descartável e fui para o quintal. A terra que estava em volta do pé de banana era escura, tinha a aparência de ser mais fértil, então abaixei e enchi o copo com ela, e fui até a torneira e molhei um pouquinho. Com um graveto fino abri quatro buraquinhos e coloquei uma semente em cada e fechei. Deixei o copo encima de um tijolo perto das bananeiras.
Duas semanas depois três haviam nascido, mas o último não quis aparecer. Com um mês havia uma plantinha, meu pesinho de maçã. Quando ela atingiu cerca de dez centímetros comecei a estranhar as folhas. Era diferente, não parecia com as de maçã. Contei para minha mãe e ela me disse a suspeita que acabou se confirmando. Alguns dias antes de eu plantar as sementes no copo, ela tinha jogado sementes de urucum, já usadas, no pé da bananeira quando estava lavando louças. Ela até desconfiou quando foi passar a enxada nos pesinhos que nasceram em volta das bananas, e viu que eram parecidos com minha macieira. Fui conferir e constatei. Era verdade. A maçã era urucum. Ai, ai! Bom demais pra ser verdade. Nós com uma fruteira dessas em casa. Mas eu ia gostar dela, mesmo que não pudesse dar frutos. Até hoje, depois de ter mudado de cidade, pergunto dela pra minha mãe quando falamos pelo telefone.
Passaram-se quatro anos e o urucum que era maçã cresceu cerca de um metro por ano. Cada safra rende uma sacada. Agora temos corante para dar e vender, vindo de um único pé. Minha mãe plantou a muda lá na chácara, pois tinha mais espaço, no quintal não cabia mais.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

21. Arnica



Ninguém me explica

Como surgiu quem criou

O velho gel de arnica

Que todo o mundo já usou



Suas costas estão doendo?

Passe gel de arnica

É o que recomendo

Fica a dica



Os ombros estão cansados?

Massageie com gel de arnica

Que logo terá passado

É o que mamãe indica



A cabeça está latejando?

Passe arnica também

E logo você estará pensando

Em indicar para alguém