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sexta-feira, 9 de maio de 2014

34. Canetas e isqueiros. Cadê?

 Aquela mesa retangular estava completamente reta e retangular. Porém, mais uma esferográfica estava rolando, indo em direção ao chão e sabe-se lá onde pararia.
Você já se perguntou onde vão parar todas as “canetas Bic” que já perdeu? Eu também. Principalmente as vermelhas e pretas, porque sempre sobravam apenas as azuis. Desde a escola até hoje na faculdade, elas me fogem as mãos. São por diversas formas. Caem no chão e se enfiam embaixo de algum móvel, provavelmente. Alguém pede emprestado e nunca mais devolve. Ou a história que um maluco (ou não) me contou um dia, que já disseram para ele que essas canetas são dispositivos espiões alienígenas (como uma câmera) que desapareciam ao serem recolhidos por seus donos.
Os isqueiros da Su parecem ir para o mesmo caminho das canetas. Ela é fumante há três anos e já perdi a conta de quantos ela já comprou. Fósforo não adianta, desaparecem do mesmo jeito. Ela vive aqui em casa pedindo um emprestado e já conseguiu perder muitos destes. Até já cogitei fazer um chaveiro personalizado, por que se perdesse o isqueiro, a chave de casa ia junto, então ela tomaria mais cuidado.

Às vezes penso que haja um lugar, talvez mágico, ou não, onde todas essas coisas possam estar. Canetas, isqueiros, fósforos, borrachas, brincos, lápis, cabos USB, ideias para monografia (piada)...

33. Coração Rubro

 Por todo o mundo existem histórias sobre joias que supostamente deram má sorte a seus donos. Acidentes e mortes terríveis e inexplicáveis que fizeram pessoas se livrarem de um objeto tão desejado por muitos. Esta será apenas mais uma dessas histórias que será apresentada por mim, Victor Barros.

Séculos atrás um membro da minha família que era cobrador impostos de um rei, recebeu um pagamento em um baú de joias. No momento do transporte estavam: o condutor da carruagem, mais quatro soldados a cavalo fazendo a segurança e Zacarias, o cobrador, dentro da carruagem com o baú. Ele era uma pequena caixa de madeira, não tinha tranca a chave, apenas um dispositivo que o mantinha fechado. Depois de anos trabalhando naquele cargo, pela primeira vez Zacarias se sentiu tentado pelo tesouro que carregava. Parecendo hipnotizado, não resistiu a abriu a caixa. Brincos, pulseiras, colares de ouro, prata com diamantes, safiras, esmeraldas, mas a única coisa que chamava atenção era um colar de ouro com um enorme pingente, uma pedra vermelha no formato de coração. Ela estava dentro de uma caixa de vidro, embaixo dela estava escrito “Coração Rubro” e encima “Se esta caixa for aberta, uma grande maldição cairá sobre seu portador por onde quer que ele vá, pelo tempo que permanecer com o Coração Rubro”. Mas a joia parecia também ter outro efeito, ela se fazia ser desejada.
A carruagem chegou no depósito dos impostos e a caixa foi guardada junto com muitas outras. Porém um objeto estava faltando e quando o rei foi avisado, mandou buscar a cabeça do ladrão Enquanto isso Zacarias estava a quilômetros de distância com um cavalo que roubou do estábulo. Ele fugiu e abandonou a esposa e três filhos pequenos, que morreram em um incêndio na casa deles um dia depois. O agora ex-cobrador seguiu sozinho por florestas, vales e desertos, o cavalo morreu picado por uma cobra venenosa. Zacarias não encontrou mais nenhum ser humano, morreu afogado em um rio que tentou atravessar.

Dias depois um pescador encontrou um corpo na água e teve a maior surpresa quando foi carregá-lo para a margem para poder enterrar. Em um dos bolsos ele encontrou um belíssimo colar de ouro com um pingente de pedra vermelha em formato de coração. Ernesto largou o corpo no rio e voltou para o seu vilarejo a pé, enquanto isso o seu barco de pesca desatou a corda e desceu com as águas. Quando estava chegando ele notou um enorme volume de fumaça e muita gritaria, seu vilarejo estava sendo atacado por saqueadores e ele não escapou dessa. Seu tesouro foi roubado justamente pelo líder do bando, que lhe passou uma navalha no pescoço.

Leonardo deu sua nova aquisição para sua mãe, pouco antes do seu esconderijo ser descoberto pela guarda real de Soquenstá e todo o bando ser preso e decapitado. Os pertencentes dos presos ficaram sobre custódia do chefe da guarda, incluindo o Coração Rubro. Julgando que ninguém saberia a quem pertencia, Joaquim retirou a joia das coisas apreendidas e levou para sua casa. Foi um lindo presente para sua filha que fazia aniversário, ela gostou que o usou em um baile no castelo, onde foi vista por um fazendeiro estrangeiro. Por ele Bianca foi raptada, violentada e morta.

Em Eraum, Nicola fez um leilão de seus pertences, incluindo terras, joias, animais, casas; pois de uma hora para outra adquiriu uma dívida impagável com o governo de seu país, e ainda estava sendo investigado pela polícia por vários crimes como sequestro e assassinato. Um rico fazendeiro arrematou a grande maioria das propriedades e as joias, que deu para sua esposa. Assim que terminou suas negociações neste país, Edgar embarcou no grande navio que atravessaria o oceano Atlântico até voltar para a América. Mas pouco antes de aportar o casco bateu em um enorme recife e o navio afundou na costa de onde hoje é conhecido como Suriname e lá permaneceu por séculos guardando a joia de sangue.

Como sei disso tudo? Eles me contaram, todos os que morreram por causa “dela”. Eu também fui uma vítima desavisada.

Eu era um explorador e fiquei fascinado com a notícia que recebi. Um navio naufragado foi localizado na costa do Suriname, possivelmente datado de 1457. Ele afundou contendo milhões em objetos de valor. Contratei uma equipe especializada e em questão de meses já estávamos catalogando cada peça que encontrávamos. Uma em particular brilhava mais que todas as outras, o Coração Rubro, que tratamos com todo cuidado e colocamos em minha exposição particular em casa em Brasília. Porém fui vítima de ladrões que roubaram todas a minhas coleções. Amarraram a mim e a minha família sentados no sofá da sala e nos mataram um por um. Agora Coração Rubro pode estar em qualquer lugar, sem achar nenhum poder que a pare, sem ninguém saber de onde ela veio.

32. Consequências de Bernardo

 “Correr, agora era a única coisa que Bernardo poderia fazer. Acabou de assaltar uma garota que estava sozinha sentada em um banco da orla do lago, ela reagiu e ele assustado por ser a primeira vez, disparou a arma. Saiu desesperado e a deixou caída no chão, jogou a arma na água e ofegante entrou no primeiro ônibus que viu. Quando entrou em casa passou direto para o quarto e escondeu no fundo do guarda-roupas a bolsa que roubou, entrou embaixo do chuveiro e ligou a água gelada, sem tirar a roupa, depois se deitou na cama e pôs-se a pensar no que tinha feito.” Todo suado, acordou no susto do pesadelo que acabou de ter.
Cerca de uma semana depois, Jessie, o seu primo, lhe trouxe uma novidade. A irmã da namorada dele queria conhecer seu primo, só que tinha uma coisa que poderia atrapalhar, ela era rica. O que para Be era uma questão muito grave, pois ele não acreditava que poderia haver relação amorosa verdadeira entre pessoas de classes sociais diferentes. Jessie não estava na mesma situação, a sua namorada e a irmã dela eram filhas apenas da mesma mãe, o pai da outra que era rico e já estava casado com outra mulher.
__ Cara, como você quer me arrumar uma riquinha. Você sabe o que eu penso.
__ É, mas ela gostou de você, mostrei a sua foto. É roqueira igualzinha a ti. Além do mais é apenas um encontro, nada demais.
__ O.k. Pode confirmar. Espero que ela seja gata.
__ Por que não compra um presente? Não precisa ser uma joia, nada disso. Alguma coisa simbólica.
__ Você sabe que eu tô sem grana.
__ Eu te arrumo um agrado.
__ Mais uma vez com essa. Não quero nada que venha do Roberto.
__ Você é que sabe, a dica tá dada. __ A conversa foi interrompida, quando Aline, a irmã de Bernardo, entrou no quarto de surpresa.
O pai deles estava tendo um enfarte e foi levado para o hospital, mas o hospital público daquela região estava superlotado, o jeito foi irem para um particular. Lá ele ficou por um dia em tratamento e outro em observação e teve alta. A conta saiu caríssima e a família não tinha condição nenhuma de arcar com esses custos. A mãe era garçonete em um restaurante pequeno, o pai já estava aposentado e não conseguia emprego pela idade que já tinha, Aline ainda estava no ensino fundamental, Bernardo tinha acabado de sair do reformatório e estava com dificuldade em conseguir emprego. O hospital ainda deu o benefício do pagamento ser feito em parcelas mensais, ainda assim o valor estava muito alto. Jessie chamou o primo para uma conversa em particular e apresentou a única solução viável naquele momento.
__ Eu falei com o Roberto. Você pode fazer um servicinho para ele e se for bem, a dívida com o hospital será responsabilidade dele.
__ Não, não. Já fiquei muito tempo preso por causa dele. Eu fui o único olheiro que a polícia encontrou lá no morro. Jurei que não iria para essa vida de novo.
__ Mas o caso agora era outro. Olha o que está em jogo.
Passaram-se cinco três dias e Bernardo os usou para pensar. Concluiu que não teria saída e foi outra vez para o mundo obscuro que nunca deveria ter ido. Morro do Pombo Cinza, onde roberto era subchefe da quadrilha de traficantes de drogas. Ele usava crianças e adolescentes no seu negócio, como “mulas” fazendo transporte mais raramente e como olheiros prestando atenção na presença da polícia na área, avisando com uma pipa fazendo movimentos. Be estava fazendo esta função quando foi preso e ficou retido por dezesseis meses até completar de dezoito anos.
As ruas do morro eram bem estreitas e escuras em certos pontos e em um desses estava a “boca”. Na entrada tinha dois homens armados, um em cada lado da porta que estava aberta. Após a porta que estava aberta. Após a porta tinha uma pequena sala com uma mulher atrás da mesa.
__ Entre garoto ele está te esperando no escritório.
Seguiu o corredor e entrou no escritório, que estava cheio de exemplares de armas expostas nas paredes. Roberto estava sentado atrás de uma maleta encima e um contador de dinheiro.
__ Você não serve mais para sua antiga função, seu rosto já está conhecido nas ruas. Vou te passar algo diferente, mais perigoso, mas vou te pagar por ter feito um bom serviço no passado. Vai pra rua fazer novos clientes e caso a situação se complique pode usar este brinquedinho aqui. __ Falou mostrando um revólver.
Naquela mesma noite Bernardo foi se encontrar com os caras que estariam com ele, mas área era estranha, pois era a parte central da cidade, ele perdeu quando chegou na orla. Avistou uma garota sentada em um banco e foi pedir informação para ela. Ele estava encapuzado e não dava para ver o rosto, chegou bem perto, mas ela se assustou e começou a gritar. Bernardo tapou a boca dela que tentava se soltar de todo jeito. Um dos capangas de Roberto chegou bem na hora, a menina se soltou e correu para ele pedindo ajuda. Tropeçou e se agarrou na blusa, que escorregou e fez o capuz cair e revelar o rosto do cara.
__ Mas que droga! Quem é essa garota?
__ Não sei. Só vim pedir uma informação e ela se assustou.
__ Agora já era. Ela viu meu rosto.
Não cara. Não faz isso.
O pedido foi inútil, o bandido sacou a arma e atirou no peito dela, que caiu no chão. Bernardo correu até ela e a segurou deitada sem saber o que fazer. O outro cara o puxou pelo braço.
__ Vamos, vai ficar aí? A polícia tá área e já já tá aqui. Quer ser preso de novo?
__ Tá louco cara?! Vai você, eu vou ficar, eu me viro.
__ Você é quem sabe. O que importa é que não sobre pra mim. __ Falou e saiu correndo.
Uma ambulância foi chamada e demorou vinte minutos para chegar. Ele preferiu não ir, pois estava com uma arma e não queria se arriscar mais do que já tinha feito. Meio flutuante, foi para casa, que para sua sorte já estavam todos dormindo e, pelo menos naquele momento, não teria que dar explicações a ninguém. Nessa noite ele não dormiu pensando no que tinha acontecido. A dívida que tinha que pagar, a falta de emprego e agora uma pessoa que poderia estar morta por sua culpa. Queria saber ela estava, mas não tinha como.
Quando amanheceu eles tiveram uma surpresa. Um pastor de uma igreja vizinha chegou na casa deles e lhes entregou um envelope. Ele disse que ali tinha o valor da primeira parcela da dívida; a vizinhança, os moradores, comerciante e as igrejas da área reuniram aquele dinheiro para ajudá-los. Bernardo e a família receberam o presente com lágrimas e ele mesmo resolveu ir até o hospital para pagar. Eles até deram um pagamento feito antes da data. Mas a surpresa maior ainda não tinha acontecido; quando chegou em casa ele recebeu a visita de Jessie e a namorada dele, Carla.
__ Minha irmã era pra ter vindo com a gente, mas aconteceu uma coisa terrível com ela. __ Disse Carla e começou a chorar.
__ A Camila foi baleada ontem à noite. Ela estava lá na orla do lago. Está com a vida por um fio. __ Falou Jessie, sem saber o que aquela informação significava para para o primo, que ficou paralisado. Estávamos no hospital agora, mas a Carla não estava bem e estava muito cansada, então a trouxe para cá. Os vizinhos lá de casa estão fazendo uma reforma e muito barulho, ela não ficaria bem lá.
__ Não. Tudo bem. __ Falou Bernardo voltando a realidade. Mas agora estava com os pensamentos a mil. Será que ela sobreviveria? Se sim, será que reconheceria seu rosto e esta história entre eles que nem tinha começado acabaria.
Os dias que se seguiram foram agonizantes. Roberto mandou um recado dizendo que ele não prestava para o trabalho, mas que o deixaria em paz se ele ficasse calado e ainda assim estaria de olho nele. Camila não mudava seu quadro, permanecia sedada. Em um desses dias Bernardo pediu para ir visitá-la, até então ele ainda não a tinha visto direito. No horário de visitas Carla o levou até o quarto onde a irmã dela estava e o deixou lá. Ele ficou olhando para a menina na cama por vários minutos, depois se aproximou e pegou em sua mão. Sem ele perceber, pois olhava para a janela, ela foi abrindo os olhos.
__ É você! __ Ele abriu os olhos no susto ao ouvir aquilo. __ É você!
Pensando que ela o havia reconhecido daquela noite, Bernardo soltou sua mão e saiu apressado e em seguida Carla entrou com muita alegria, sem perceber o que estava acontecendo. Para ele aquilo tudo estava sendo mais difícil porque não contou nada para ninguém, nem para Jessie. Ele passou em casa, pegou o skate e foi para a rua dar umas voltas para esfriar a cabeça e voltou no fim da tarde. Só tinha a mãe em casa preparando o jantar, sentou no sofá por uns dois minutos e resolveu ajudá-la na cozinha.
__ Notei você diferente nesses dias filho. Está com algum problema que não saibamos?
__ Não se preocupe com isso mãe, eu resolvo tudo. Lembra do nosso combinado? Todo problema tem ser resolvido em família.
__ Olha mãe... Já fiz vocês sofrerem demais, só quero que fiquem em paz. Nós temos outras preocupações agora.
__ A dívida... O meu patrão disse que vai me dar um aumento por ser boa funcionária, mas todos sabem o porquê na verdade. É para nos ajudar.
__ Que bom.
__ Se cuida eim. Não vá se meter com aquela gente outra vez. Se for preso agora, vai pra cadeia de verdade.
Depois de terminar o preparo do jantar Bernardo foi para o quarto e ficou lá até a chegada de Jessie e mais dois amigos.
__ Nós vamos lá no boteco jogar sinuca, quer ir? __ Falou Paulo.
__ Não. Tenho que estudar para o teste. Preciso passar nessa prova para conseguir voltar para a escola.
__ Que isso cara?! Sabemos que está com problemas, mas você precisa voltar para a vida. __ Disse Otávio.
__ Há dias você não sai com a gente. __ Reclama Jessie.
__ Eu tô com a cabeça cheia. Não quero sair agora.
__ O.k. Nós vamos, mas voltamos depois. Ah! A Carla disse que vem aqui amanhã conversar com você. É alguma coisa sobre a Camila.
Tentou estudar, mas não conseguiu. A todo momento vinha o pensamento: qual assunto Carla queria com ele. Será que a irmã contou que o reconheceu, que ele estava lá na noite em que ela foi baleada. Estava com medo de ser preso de novo, mesmo não sendo ele o autor do disparo. Estava com medo da quadrilha de Roberto, dele mudar de ideia e resolver fazer alguma coisa com a sua família. E ainda tinha um fato importante: o tiro que Camila levou foi porque viu o rosto do capanga da quadrilha e agora ela estava viva, pronta para denunciar.
Quando Carla entrou na sala, Bernardo pensou que estava morto. A convidou para conversarem no fundo do quintal onde ninguém incomodaria naquele momento. O coração estava quase saltando.
__ Camila está bem, se recuperando, agora sem sedativos. Ela me pediu para te dar um recado. Quer que você vá vê-la e que não importa o que tenha acontecido, já é passado.
__ Ela te contou? O que aconteceu.
__ Não. Apesar de eu ter insistido. Acho melhor assim, vocês precisam de privacidade. Mas tem uma coisa. Por favor, não a faça sofrer. Ela já levou muita pancada da vida e não precisa de mais uma.
__ Quando posso ir?
__ Agora mesmo se quiser, eu te levo.
__ Quero sim.
Camila estava deitada. Quando a sua visita chegou, ela inclinou a cama e ficou sentada. Bernardo entrou devagar, sem dizer nada, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. Ainda em silêncio ele não conseguiu olhar nos olhos dela, que pegou uma de suas mão e segurou.
__ A culpa não foi sua. Não foi você que atirou.
__ Eu nem fui junto na ambulância. Estava com medo.
__ Mas você me salvou. Ficou lá comigo até a ambulância chegar.
__ Por que está sendo tão boa assim? Isso é mais torturante ainda pra mim.
__ Gosto de você.
__ Mas nem me conhece.
__ Conheço. Pelo menos pelo que o Jessie fala.
__ Tô preocupado com você. Aquele cara pode voltar para terminar o que começou.
__ Não se preocupe. Falei para todos que não me lembro de quem atirou em mim e que ele estava sozinho.
__ A polícia pode descobrir.
__ Eles não têm pistas, eu sou a única testemunha.
__ Obrigado!
__ Eu sei. Carla e Jessie me contaram. Você pode ser preso novamente. Eu só tenho um pedido para fazer.
__ O quê?
__ Quando eu sair daqui vamos ao cinema? __ Perguntou ela sorrindo e também sorrindo ele respondeu:

__ Claro. Dessa vez um encontro de verdade.

31. Flor e mangaba

 Era início da primavera e a paisagem, antes seca pelo período do inverno, estava belíssima, com flores de todos os tamanhos, formas e cores. O problema era a chegada do verão em que essas flores cairiam e morreriam. Uma pequena flor de mangabeira morria de medo que isso acontecesse, mas não poderia fazer nada, estava presa na árvore.
O tempo passava e junto com ele milhares de flores da magabeira caíam e iam embora com o vento. A florzinha via isso com muita tristeza, tinha muito medo de deixar de existir de ser esquecida. Os dias passavam e ela ficava mais triste, ficava murcha, estava perdendo a cor, a vida. O verão chegou e as últimas flores estavam cumprindo seu destino e tinha chegado a hora da florzinha medrosa, foi o vento fresco da manhã que a levou já seca. Porém a vida nela não acabou ali, foi transferida para outra parte, virou uma pequenina mangaba. A mangaba cresceu no verão e na metade do outono caiu no chão e ficou lá durante o inverno e o início da próxima primavera. Após a primeira semana de chuvas brotou uma nova mangabeira.

30. Dog, o gato

 O dia estava lindo para passear e seu Mariano percebeu isso assim que acordou. Tomou seu café da manhã, colocou a coleira em Dog e saiu. Foi andando pela calçada e chegou até a praça do seu bairro, que estava cheia, de pessoas e de animais de todos os tipos. A maioria das pessoas olhava para ele com estranheza, outras achavam graça e riam, é que Mariano tinha a peculiaridade, na verdade o Dog que tinha, apesar do nome ele não era um gato. Desde filhote ele foi criado como um cachorro e cresceu pensando ser um. Houve vezes em que seu miado soou como um latido. Ele protegia o dono com ferocidade, enfrentando até mesmo cães perigosos. Quando alguém lhe dizia que ele era um gato ele pulava encima com muita raiva.
Sua realidade mudou quando chegou em uma fase crucial em sua vida. Estava envelhecendo e precisava de uma companheira, mas nenhuma cadela o quis. Em um certo dia ele estava passando em frente a um prédio espelhado e parou para olhar o seu reflexo, se olhou detalhe por detalhe para saber o que ele tinha de diferente dos outros cães. Esteve distraído por vários minutos, até que percebeu a presença de um animal com traços idênticos aos seus. Ele foi até lá, o outro estava revirando uma lata de lixo. Quando saiu, os dois ficaram frente a frente, aí Dog percebeu que o outro era uma fêmea e finalmente aceitou que era um gato, mas sem deixar a identidade que já tinha.

Dog levou a gata para casa, Mariano a recebeu com alegria. Eles tiveram várias ninhadas que se espalharam pela vizinhança, mas alguns ainda ficaram. Como eram muitos, passaram passear sem coleira, mas vários gatinhos com espírito de cachorro.

terça-feira, 8 de abril de 2014

29. A cerca

 No condado de Lox a paz reinava. Há muito tempo existiu uma criatura que aterrorizava a região, mas ninguém soube como ela parou de atacar. Na verdade era um homem que foi enfeitiçado e foi transformado, ficando da cintura para baixo com o corpo de gorila e da cintura para cima com o corpo de leão. Ele era devorador, e dezenas, centenas de pessoas desapareceram em um ano que ele esteve livre. O que ninguém sabia era que o que estava contendo ele agora era a cerca em volta de uma casa antiga em ele estava. Ele não podia sair dali senão voltaria a querer atacar as pessoas.
Para a má sorte dos cidadãos de Lox a feiticeira que criou o monstro descobriu que ele estava preso. Disfarçada de uma jovem ela foi até a cerca e ficou chamando por sua criatura que resistia e não saía. Cada dia ela assumia uma forma diferente, uma jovem mais bela que a anterior, porém ele resistiu. Até que a feiticeira teve sua melhor ideia, assumiu a forma de Milena a antiga namorada do rapaz. A essa ele não resistiu, quebrou uma estaca da cerca e passou, quando se aproximou sua amada se transformou em seu pesadelo.
__ Está livre para cumprir sua missão.

A criatura voltou a atacar, só que para a decepção da feiticeira o que ele atacou foi ela, comendo a sua cabeça. O feitiço foi quebrado e enfim George pode voltar para casa, onde todos pensavam que já estava morto, pelo tempo que ficou desaparecido. Com medo de ser morto pela população, ele se mudou com a sua família para outro lugar, onde ninguém os conhecia.

28. Um pinguim no Jalapão

 Em um canto da Antártida um pinguim inconformado com sua natureza, fez a seguinte questão: por que pinguins têm que viver em lugares fechados? Qual seria problema em sentir calor. Por causa de sua indagação Jones era motivo de chacota dentre as pessoas de sua colônia. Mas um dia a própria natureza resolveu pregar-lhe uma peça. Quando estava em mais de suas pescas, um pássaro tentou roubar sua pesca, ao tentar evitar ele escorregou e caiu na laguna. Tudo estaria normal, se não fosse o fato de a água ter começado a soltar bolhas e Jones foi puxado por um rodamoinho para o fundo e mais fundo. Mas este não existia, o pinguim continuou sendo puxado e ele pensando que já estava morto. A força o jogou para fora da água, só que não estava mais na Antártida. A água não estava gelada, o vento não era gelado e quando abriu os olhos viu algo que nunca tinha visto: árvores, muitas árvores. Óbvio que estranhou aquele lugar, mas ficou feliz por finalmente realizar seu sonho, sentiria calor. Rapidamente saiu da água e partiu para sua exploração em busca de algum animal que poderia lhe dizer onde exatamente estava. Andou por alguns minutos até encontrar uma cobra que não lhe deu a mínima atenção, ela passou se arrastando e sacudia a ponta do rabo fazendo um barulho semelhante ao de um chocalho. Continuou a andar pela mata até chegar a um outro tipo de vegetação, era baixa com folhas finas e muito compridas e a maior parte estava seca, era capim. Lá ele encontrou um grupo de animais, eram emas. Primeiro elas correram assustadas, depois uma curiosa voltou e as outras a acompanharam em seguida.
__ Quem é, ou o que é você?
__ Nunca vimos nada desse tipo por aqui.
__ Sou Jones, um pinguim.
__ Um pin o quê?
__ Um pinguim. Eu vivo no polo sul, um lugar muito gelado e muito branco.
__ Se é de um lugar gelado, o que faz aqui?
__ Sempre quis saber como é calor. Mas acabei parando aqui sem querer, a água me trouxe.
__ Ah! Mais um. __ Disse uma das emas.
__ Como assim mais um?
__ É que há dois meses apareceu um elefante dizendo a mesma coisa. Deve ter alguma coisa misteriosa acontecendo com aquela lagoa. Já tentamos, mas não conseguimos fazer ele voltar para casa.
__ Não sei se quero voltar para casa. Lá todos dizem que sou louco só por querer sentir calor.
__ Vamos levar ele para conhecer Java.
__ Não. Você sabe como ele é com relação a estranhos aqui.
__ É melhor agora do que ele descobrir que a gente já sabia.
__ É melhor o senhor montar em mim, porque com essas perninhas não vai muito longe. __ Jones tentou de todo jeito subir nas costas da ema, foi preciso outras emas o ajudarem com a cabeça. E lá se foram sete emas e um pinguim nas costas.
__ As senhoras poderiam me dizer onde estou.
__ Me respeite rapaz que sou macho. __ Falou umas das emas.
__ Desculpe senhor, não sabia. __ Enquanto isso as outras emas caíram na risada.
__ É melhor prestar mais atenção se quiser sobreviver aqui. __ Disse a ema macho. __ O senhor está no lugar que os humanos chamam de Jalapão, num país chamado Brasil.
__ Nossa! Então fui parar muito longe. __ Falou e ficou pensativo. __ Quem é Java.
__ Java é o líder dos animais dessa região, ele comanda tudo por aqui.
__ Ele é um caititu que diz que é um javali, só porque o nome é mais bonito. __ Falou a ema macho.
__ Quem disse isso? __ Uma voz grave se espalhou por aquele ambiente e fez as emas paralisarem.
__ Perdão mestre. __ Falou a ema macho.
__ Fale dessa forma outra vez e verá o que irá te acontecer.
__ Sim senhor.
__ Mas que criatura é esta? __ Falou o caititu que finalmente se mostrou e deu um susto em todos, fazendo-os dar um pulo para trás e Jones caiu de costas no chão.
__ Não sabia que eu era tão feio assim. __ Falou Java, enquanto os outros se recuperavam do susto. __ Então, me digam que tipo de animal é este?
__ Um pinguim, senhor. Ele veio de um lugar gelado chamado Antárdida.
__ Chegou aqui do mesmo jeito que o Carlos, o elefante africano.
__ Que azar eim meu filho. __ Falo Java. __ Venha conosco para a grande reunião, estamos justamente tentando uma forma de fazer o Carlos voltar para casa, você também poderá voltar.
__ Não quero voltar. Ninguém lá gosta de mim. Além do mais, estou realizando meu sonho, estou sentindo essa temperatura boa, quentinha.
__ Já que prefere assim. Bem-vindo a nossa comunidade. É melhor irmos agora, pois já vai anoitecer.
Na grande reunião a raposa apresentou a solução para o elefante. Um pouco antes de Jones chegar, uma capivara também chegou nas redondezas pela mesma forma. Ela tinha entrado na água e foi parar na China e depois voltou. E ficou claro para todos, segundo o que ela falou, que para retornar era necessário apenas entrar na água, exatamente no lugar em que saiu. No dia seguinte uma parte dos animais acompanhou o elefante até o rio e presenteou sua volta para casa. O pinguim ainda continuou lá, porém depois de alguns dias começou a sentir saudade de casa, além disso passou se sentir mal, sentia tonturas. Piorava a cada dia que passava, o calor era demais para ele, precisava voltar para casa mesmo sem querer. A assembleia dos animais decidiu que Jones voltaria para a Antártida com a companhia de uma das emas.
Eles pularam na água, que borbulhou até engolir os dois e a força os puxou diretamente para as águas geladas do polo sul e saíram na laguna que iniciou a aventura. Os dois animais ficaram na beira da água desacordados por horas e não perceberam quando apareceram dezenas de pinguins e os arrastaram para a colônia. Jones acordou com tontura, demorou um pouco a lembrar o que tinha acontecido, até que...
__ Charlote! Charlote! Onde está você?
__ Calma filho. Sua amiga já está acordada um bom tempo e está passeando com as suas irmãs.
__ Mãe. Que saudade de você, e do papai. __ Os três deram um longo abraço.

Jones estava feliz em voltar, pois se deu conta que cada animal tinha sua natureza, seu hábitat natural. Para ele não deu certo, mas ema Charlote conseguiu se adaptar e resolveu ficar por lá. Mas de tempos em tempos os dois e mais um grupo pulava na laguna e iam visitar os amigos no Jalapão. Ficaram tempo suficiente para não ficarem doentes, mas nem todos os animais do cerrado argumentaram o frio Antártico. Eles também viajaram para visitar Carlos na África. Essas viagens foram feitas por gerações, até serem esquecidas completamente.