João poderia ser
um adulto normal se na sua infância não tivesse desenvolvido TOC.
Ele toma no mínimo seis banhos por dia, sem esponja, apenas com
sabonete, pois tem medo dos micro-organismos que crescem nela. Passa
o sabonete puro na pele, duas três rodadas no mesmo banho. Nunca
deixa louça suja na pia e sua empregada tem que lavar a casa e
passar aspirador de pó todos os dias, nunca espanador. Só come a
comida feita na hora e em casa, pois desconfia sempre da higiene dos
restaurantes e lanchonetes. Quando não está usando lenços para
pegar nas coisas, as mãos estão com luvas. Até ao cumprimentar
evita o toque direto, um abraço é um sacrifício e algo raro.
Sempre leva um pequeno frasco de álcool gel em sua maleta.
Ele é o advogado
que mais gasta com o serviço de limpeza do escritório. Mas seu
chefe nem reclama, sabe que é o que mais rende para a empresa. João
é um ótimo profissional. Seus clientes o adoram apesar do seu
jeitinho peculiar. O juiz Hernandez já se acostumou com o advogado
que pega algumas provas com uma pinça, mesmo às vezes sendo
desnecessário. Apesar de já ter passado por situações
desagradáveis ele nunca se preocupou em procurar a ajuda de um
psicólogo, já estava acostumado.
Sua vida amorosa
sempre foi um desastre. Até os trinta e quatro anos três namoradas,
a última foi a que durou mais tempo, dois meses. Nenhuma conseguiu
conviver com as manias de João. Todo o cuidado que tinha com o
contato com as outras pessoas, tinha com as namoradas. Ele conseguiu
ato de usar antisséptico bucal depois de um beijo e muitas vezes na
frente delas. Sua situação começou a tomar um ritmo diferente
quando Samanta Temaraque, tenente da polícia federal, apareceu em
sua vida. Eles se conheceram a partir de um caso que ela estava
investigando e um dos clientes dele estava envolvido como suspeito e
João conseguiu provar a inocência dele.
Samanta acabou se
interessando por aquele estranho advogado e ele por ela. No começo
da relação as manias ainda imperavam. Mas ele percebeu que essa era
diferente das outras, estava sentindo algo que o fez querer mudar.
Começou a frequentar um psicólogo, o progresso foi lento, mas teve
um grande avanço. João não usa mais antisséptico depois do beijo,
usa apenas o lenço de vez em quando e as luvas foram jogadas fora.
Escolheu um restaurante para frequentar com Samanta, e claro sempre
vai até a cozinha conferir e fiscalizar o preparo dos seus pratos.
Ainda toma vários banhos por dia, apena com sabonete. Ela não
implica com ele, sabe que seu comportamento não é de propósito,
não é culpa dele. Os dois decidiram se casar. A cerimônia foi
realizada sete meses depois de terem se conhecido. Nasceu Leonardo
quatro anos depois. Samanta não deixa o marido dar banho no bebê.
Toda vez que ele fez isso quase matou o menino esfregando sabonete no
rosto dele.
