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terça-feira, 8 de abril de 2014

24. Vovô Bile

 Todo ano eu passo o verão na casa do meu avô Bile, o pai da minha mãe. Já tem cinco anos que a minha avó Margarida morreu. Na época eu tinha 6 anos, minha mãe não deixou eu ir, na verdade não me disse o que tinha acontecido. Só descobri três meses depois quando minha mãe tentou me impedir de passar as férias no sítio.
Hoje temos apenas meu avô, o Luiz e a Adriana, filhos dos ajudantes do meu avô, e eu. Todo verão inventamos novas brincadeiras. Ano passado tivemos competição de contação de histórias de terror, que foi vencida todas as noites pelo Bile. Esse ano ele teve a ideia de fazer uma caça ao tesouro. As pistas estariam espalhadas pelo sítio em qualquer lugar. Por segurança a brincadeira só era válida durante o dia para não nos perdermos.
As regras foram passadas no primeiro dia à noite. Diferentes objetos deveriam ser encontrados e juntamente co eles estariam as pistas do próximo objeto. Adriana perguntou quando e como começaria o jogo.
__ Calma. Amanhã vocês vão saber. Agora vou contar a história do dromedário que queria ser um camelo...
No outro dia quando acordamos tinha um bilhete na mesinha de cabeceira. Fiquei super curiosa e o peguei para ler. “Limpo aquilo que consome todos os dias. Aquele branquinho, pequeno que vem dentro de uma casca amarela e levinha. Ele tem um casamento perfeito com um sujeito que ora está listrado ora está vermelho. Quem sou eu?”
__ Caramba! O avô pegou pesado.
Comecei a procurar em todos os lugares sem ao menos saber o significado do enigma. Revirei o meu quarto e Bile chegou no momento em eu jogava as roupas do baú encima da cama.
__ O que está fazendo garotinha?
__ Estou procurando o que está no bilhete. Ainda não sei o que é, mas vai que encontro mesmo assim.
__ Que ânimo. Antes de escovar os dentes, tomar o café. Vamos fazer assim: você escova, come, arruma essa bagunça, aí depois pode explorar o sítio.
__ Ah não! Vô.
__ Anda mocinha!
Depois de todos tomarmos café da manhã, partirmos para nossa aventura do dia. Essa parada serviu para eu pensar melhor sobre a pista e acabei descobrindo o que é. A coisa branca é o arroz que casa com feijão. O que limpa o arroz é o pilão. Fui correndo para o barracão onde são guardadas as sementes, pois lá tinha um, mas não achei nada. Sorte que lembrei do pilão que fica perto das bananeiras, que é movido à água. Procurei bastante até encontrar um envelope em um saquinho, escondido embaixo de uma pedra perto do pilão. Abri o saco e o envelope, tinha uma moeda grande prateada, uma moeda antiga datada de 1876. Fiquei atenta à próxima pista.
“Algum maluco já fez sorvete de mim. Muitos acham estranho. Minha primavera é inverno. Estou no norte, nordeste e centro-oeste. Posso ser simples e às vezes arisco. Muitos gostam de mim, mas muitos também não me suportam, enjoam ao sentir meu cheiro. Quem sou eu?” Essa foi muito fácil. Obvio que é o pequi. O próximo objeto e a próxima pista devem estar no pequizeiro, o problema é saber qual. Temos um pomar deles. Ah! Já sei. Meus avós escreveram as iniciais deles em um dos pequizeiros e atrás dele eu fui. No pomar tinham cerca de trinta pés de pequi, alguns eram diferentes seus galhos pareciam cordas penduras. Andei bastante até encontrar um B e um M entalhados em um tronco, e lá estava um saquinho com outra moeda (esta era de ouro de 1892) e a próxima pista.
__ Gabriela vem me ajudar no almoço. __ Dona Joana gritou da janela da cozinha. Ela é a mãe do Luiz e da Adriana.
__ Já vou. __ Seria bom dá um descanso e fui ajudá-la.
Depois do almoço nós três voltamos para a aventura. Cada um foi desvendar o enigma dos bilhetes. No meu estava escrito assim: “Faço bem e às vezes faço mal. Pintou sujeira, estou lá. Na maioria das vezes sou duas caras. Quem sou eu?” O vovô dessa vez facilitou as coisas, a peça do enigma é uma enxada. Como não saberia, se foi a coisa que me atormentou por muito tempo. Fui até o quarto das ferramentas e procurei enxada por enxada e encontrei em uma que estava encostada atrás da porta. Uma moeda de bronze de 1746 e outro bilhete. “Pena que a brincadeira acabou, mas o tempo está rolando tic tac tic tac.” Fui correndo atrás de todos os relógios da casa, parece que o Bile fez a mesma coisa com os outros, pois nos encontramos diversas vezes correndo pela casa. Encontrei o último objeto atrás do relógio do meu quarto, uma moeda de prata de 1627 e um bilhete diferente. “Espero que tenha tido uma grande aventura. Nos próximos dias terão boas surpresas. Te espero no lugar de sempre.” Fiquei super curiosa, tive que esperar até a noite.
Em volta da fogueira todos mostraram suas conquistas, eu minhas moedas, Luiz as figurinhas antigas e a Adriana as joias da minha avó. Bile disse que nós poderíamos ficar com os objetos, que eles valiam muito, mas só poderíamos usar quando fossemos mais velhos. Terminamos a noite imaginando o que o vovô estava aprontando para os dias seguintes.

segunda-feira, 24 de março de 2014

23. O TOC de João

João poderia ser um adulto normal se na sua infância não tivesse desenvolvido TOC. Ele toma no mínimo seis banhos por dia, sem esponja, apenas com sabonete, pois tem medo dos micro-organismos que crescem nela. Passa o sabonete puro na pele, duas três rodadas no mesmo banho. Nunca deixa louça suja na pia e sua empregada tem que lavar a casa e passar aspirador de pó todos os dias, nunca espanador. Só come a comida feita na hora e em casa, pois desconfia sempre da higiene dos restaurantes e lanchonetes. Quando não está usando lenços para pegar nas coisas, as mãos estão com luvas. Até ao cumprimentar evita o toque direto, um abraço é um sacrifício e algo raro. Sempre leva um pequeno frasco de álcool gel em sua maleta.
Ele é o advogado que mais gasta com o serviço de limpeza do escritório. Mas seu chefe nem reclama, sabe que é o que mais rende para a empresa. João é um ótimo profissional. Seus clientes o adoram apesar do seu jeitinho peculiar. O juiz Hernandez já se acostumou com o advogado que pega algumas provas com uma pinça, mesmo às vezes sendo desnecessário. Apesar de já ter passado por situações desagradáveis ele nunca se preocupou em procurar a ajuda de um psicólogo, já estava acostumado.
Sua vida amorosa sempre foi um desastre. Até os trinta e quatro anos três namoradas, a última foi a que durou mais tempo, dois meses. Nenhuma conseguiu conviver com as manias de João. Todo o cuidado que tinha com o contato com as outras pessoas, tinha com as namoradas. Ele conseguiu ato de usar antisséptico bucal depois de um beijo e muitas vezes na frente delas. Sua situação começou a tomar um ritmo diferente quando Samanta Temaraque, tenente da polícia federal, apareceu em sua vida. Eles se conheceram a partir de um caso que ela estava investigando e um dos clientes dele estava envolvido como suspeito e João conseguiu provar a inocência dele.
Samanta acabou se interessando por aquele estranho advogado e ele por ela. No começo da relação as manias ainda imperavam. Mas ele percebeu que essa era diferente das outras, estava sentindo algo que o fez querer mudar. Começou a frequentar um psicólogo, o progresso foi lento, mas teve um grande avanço. João não usa mais antisséptico depois do beijo, usa apenas o lenço de vez em quando e as luvas foram jogadas fora. Escolheu um restaurante para frequentar com Samanta, e claro sempre vai até a cozinha conferir e fiscalizar o preparo dos seus pratos. Ainda toma vários banhos por dia, apena com sabonete. Ela não implica com ele, sabe que seu comportamento não é de propósito, não é culpa dele. Os dois decidiram se casar. A cerimônia foi realizada sete meses depois de terem se conhecido. Nasceu Leonardo quatro anos depois. Samanta não deixa o marido dar banho no bebê. Toda vez que ele fez isso quase matou o menino esfregando sabonete no rosto dele.

22. O urucum que era maçã



Comprei algumas maçãs no mercado. Gosto mais daquelas amarelas, nem verdes nem maduras demais. Enquanto comia uma delas, eu olhava para o quintal pela janela e tive uma ideia. Nós temos fruteiras de diversas espécies, por que não ter uma de maçã? Assim que terminei de comer retirei quatro sementes, peguei um copo descartável e fui para o quintal. A terra que estava em volta do pé de banana era escura, tinha a aparência de ser mais fértil, então abaixei e enchi o copo com ela, e fui até a torneira e molhei um pouquinho. Com um graveto fino abri quatro buraquinhos e coloquei uma semente em cada e fechei. Deixei o copo encima de um tijolo perto das bananeiras.
Duas semanas depois três haviam nascido, mas o último não quis aparecer. Com um mês havia uma plantinha, meu pesinho de maçã. Quando ela atingiu cerca de dez centímetros comecei a estranhar as folhas. Era diferente, não parecia com as de maçã. Contei para minha mãe e ela me disse a suspeita que acabou se confirmando. Alguns dias antes de eu plantar as sementes no copo, ela tinha jogado sementes de urucum, já usadas, no pé da bananeira quando estava lavando louças. Ela até desconfiou quando foi passar a enxada nos pesinhos que nasceram em volta das bananas, e viu que eram parecidos com minha macieira. Fui conferir e constatei. Era verdade. A maçã era urucum. Ai, ai! Bom demais pra ser verdade. Nós com uma fruteira dessas em casa. Mas eu ia gostar dela, mesmo que não pudesse dar frutos. Até hoje, depois de ter mudado de cidade, pergunto dela pra minha mãe quando falamos pelo telefone.
Passaram-se quatro anos e o urucum que era maçã cresceu cerca de um metro por ano. Cada safra rende uma sacada. Agora temos corante para dar e vender, vindo de um único pé. Minha mãe plantou a muda lá na chácara, pois tinha mais espaço, no quintal não cabia mais.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

21. Arnica



Ninguém me explica

Como surgiu quem criou

O velho gel de arnica

Que todo o mundo já usou



Suas costas estão doendo?

Passe gel de arnica

É o que recomendo

Fica a dica



Os ombros estão cansados?

Massageie com gel de arnica

Que logo terá passado

É o que mamãe indica



A cabeça está latejando?

Passe arnica também

E logo você estará pensando

Em indicar para alguém




20. Aniversário de um estranho



Domingo 31.03.213



A música toca, um xote legal. Os pés dela balançam com ritmo, está com vontade de dançar. Mas ela está morrendo de vergonha e medo, afinal alguns dos convidados daquele aniversário são conhecidos, a maioria não é. Há mais homens que mulheres na festa, só que ninguém a chama. Ela está frustrada e com raiva, pois aquela que se diz sua amiga, a deixou dizendo que voltava logo e ao olhar no relógio percebe que já se passou duas horas.

O DJ muda para eletrônica e ela se sente bem e levanta para dançar, ainda que um pouco receosa. De vez em quando vai até a mesa e pega um pedaço de bolo e enche o copo com refrigerante. A música é mudada para tecnobrega e ela novamente se senta. Só que dessa vez os conhecidos começam a chama-la para dançar, mas não aceita. Ela está com vergonha e na verdade prefere dança solo.

Assim a festa termina. A barriga entupida de bolo, refrigerante e cachorro quente. O nome e rosto de alguns convidados na cabeça. Balões na mão. O bombom foi esquecido na mesa, alguém vai ser feliz com ele. Ela dançou com ninguém. A amiga não voltou. Ainda bem que a festa era na casa de um vizinho. 



19. Sala X praia


Domingo 31.03.2013

A história se repete desde a segunda, terceira, quarta série. Na quinta é só ter uma aula chata e eu me junto a mais alguns colegas e vou para a praia. Hoje aula a de matemática mal começou e Patrícia já veio me cutucar para sair. Nós sempre fazemos assim: cada um sai separadamente e já fica combinado de alguém que ficar levar nossos cadernos e depois nós pegamos.
É quase como missão de agente secreto, não podemos deixar ninguém que esteja no corredor ou no pátio perceber para onde estamos indo. Se perceber é enfiar logo banheiro ou ir para o bebedouro. Sorte nossa é que a escola tem uma parte do muro que fica escondida atrás dela e com espaço para qualquer um se esconder ou usar de banheiro. Que nojo! O muro já tem uns buracos que cabem pés e mão, no jeitinho para os fujões.
Saltamos e ganhamos a rua. Estamos Patrícia, Daniela, Pedro e eu. Descemos e subimos as ladeiras esquecendo a possibilidade de nossos pais nos verem. Chegamos ao rio. Eu caio na água e sempre com nado cachorrinho, ainda estou aprendendo a nadar. Sento na areia pensando no que tinha feito e penso ainda no vou fazer, pois tenho que explicar de onde surgiu aquela roupa molhada. Já havia conseguido entrar escondida em casa uma vez, mas nas outras não deu. Pior ainda foi o dia que nos esquecemos de pedir pra alguém pegar nossos cadernos e nossos pais foram chamados na escola. É melhor eu banhar mais porque não sei o que me espera em casa. Arroz e feijão ou cipó de malva e gervão.