Hoje não
foi diferente de ontem, ou anteontem. Fui encostado na parede, xingado e jogado
no chão. Mas tenho que aguentar, minha família não tem condições para mudar de
bairro e a outra escola que fica mais próxima tenho que pegar dois ônibus para
chegar lá. Sei que um dia isso vai acabar.
Ter
conseguido bolsa num colégio particular não foi fácil, mas difícil mesmo é
conseguir ficar lá. Tenho vários amigos, alguns até visitam a minha casa. O
problema é que os garotos do segundo ano não gostam de mim. Dizem que é porque
sou negro e pobre. Caí da escada, escorreguei e caí no chão, essas são algumas
das desculpas que tenho que dar para meus pais, não quero preocupa-los eles já
tem mais problemas para cuidar, como conseguir pagar as contas de luz e de
água. Eu sei que um dia conseguirei me formar e tirar minha família daqui.
Sim,
minha família mudou, ela mudou sua rotina. Pouco tempo antes da formatura levei
minha última surra daqueles caras. Passei um ano em coma profundo, depois só me
movimentava com cadeira de rodas, tomava remédios praticamente a cada meia hora,
todos os dias. Para cuidar de mim, minha mãe teve que deixar o emprego, meu
irmão tentou ajudar, só que ele tinha apenas 10 anos, fazia o que podia. Porém
as coisas começaram a melhorar quando ganhamos o processo contra as famílias
daqueles que me deixaram neste estado.
Bom, hoje não foi diferente de ontem, ou anteontem.
Depois de uma adolescência cheia de emoções, agora tenho muito mais emoções. As
ações da minha empresa não param de subir e agora a Rebeca está grávida outra
vez, serei pai de gêmeos. Como já ensinei a Tatiana também ensinarei a eles que
não se deve ter preconceito com ninguém, pois todos são iguais e todos são
diferentes.

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