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quinta-feira, 14 de março de 2013

9. Quem sabe


         Às vezes penso que ele não gosta de mim. Motivos? Não sou uma pessoa que digamos assim, seja atraente, que chame atenção de um cara, não do jeito certo. Cabelo descuidado, pele áspera, mãos calejadas e uma cicatriz enorme no rosto. Por anos fiquei no cantinho da do fundo da classe, tirava notas medianas, o suficiente para não ser reprovada. Sempre alvo das brincadeiras dos populares da escola, já houve vezes que não tive coragem de ir à aula. Muitas vezes já pensei em me matar. Nunca tive um namorado. E meus pais não conseguem mais viver em harmonia.
    Quando Daniel apareceu na saída do meu trabalho simplesmente não acreditei. Um dos caras mais populares do colégio chegou perto de mim, pegou em minhas mãos e disse que estava apaixonado por mim. É claro que desconfiei na hora, como podia alguém que fez piadinhas comigo dizer algo assim. Isso se repetiu nas semanas seguintes, ainda começaram a aparecer bilhetinhos no meu armário. O estranho é que não o vejo mais com os outros garotos. Mas continuo desconfiada.
Um acontecimento me fez esquecer esse fato por um tempo. Meu pai foi atropelado quando saía para o trabalho, sofreu traumatismo craniano e quando conseguiu se recuperar descobriu que suas pernas não se moviam mais, ele teria que fazer fisioterapia. Essa notícia foi terrível, não tínhamos dinheiro para isso, nós teríamos que tentar pelo SUS que demora demais. Mas o incrível é que naquela mesma semana meu pai já pode começar a o tratamento. Muitas pessoas estranharam, pois pelo SUS a espera poderia ser de meses. Meu tio Alberto acabou descobrindo que esse tratamento está sendo pago por uma pessoa e não pela rede pública. “Tem alguém pagando”. Mas quem? Por várias vezes tentei descobrir quem era. Saber o porquê e também agradecer. Mas essa pessoa pediu sigilo para a clínica.
     O Daniel parou mais de procurar, mas ainda recebo bilhetinhos e alguns deles em apoio ao meu pai. Continuo trabalhando, pois com ele fora do trabalho ficaria muito difícil a situação lá em casa e pior ainda se eu saísse, e minha já é aposentada como professora.
         Apesar de tanta tristeza ganhei um momento de felicidade. Num dia quando estava indo embora da escola eu escutei o Daniel discutindo com um dos antigos amigos e um trecho chamou a minha atenção.
       __ Qual é cara, virou o bom samaritano agora? Primeiro abandonou a gente e agora resolveu pagar o tratamento do pai daquela horrorosa.
         __ Cala essa boca! Não se meta na minha vida.
        É ele. Por que nunca me contou? É, parece que realmente ele gosta de mim. Mas nós somos tão diferentes, não tem como darmos certo. Caramba que confusão. Mas quem sabe, um dia, ficamos juntos?!




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