Às vezes
penso que ele não gosta de mim. Motivos? Não sou uma pessoa que digamos assim,
seja atraente, que chame atenção de um cara, não do jeito certo. Cabelo
descuidado, pele áspera, mãos calejadas e uma cicatriz enorme no rosto. Por
anos fiquei no cantinho da do fundo da classe, tirava notas medianas, o
suficiente para não ser reprovada. Sempre alvo das brincadeiras dos populares
da escola, já houve vezes que não tive coragem de ir à aula. Muitas vezes já
pensei em me matar. Nunca tive um namorado. E meus pais não conseguem mais
viver em harmonia.
Quando
Daniel apareceu na saída do meu trabalho simplesmente não acreditei. Um dos
caras mais populares do colégio chegou perto de mim, pegou em minhas mãos e
disse que estava apaixonado por mim. É claro que desconfiei na hora, como podia
alguém que fez piadinhas comigo dizer algo assim. Isso se repetiu nas semanas
seguintes, ainda começaram a aparecer bilhetinhos no meu armário. O estranho é
que não o vejo mais com os outros garotos. Mas continuo desconfiada.
Um
acontecimento me fez esquecer esse fato por um tempo. Meu pai foi atropelado
quando saía para o trabalho, sofreu traumatismo craniano e quando conseguiu se
recuperar descobriu que suas pernas não se moviam mais, ele teria que fazer
fisioterapia. Essa notícia foi terrível, não tínhamos dinheiro para isso, nós
teríamos que tentar pelo SUS que demora demais. Mas o incrível é que naquela
mesma semana meu pai já pode começar a o tratamento. Muitas pessoas
estranharam, pois pelo SUS a espera poderia ser de meses. Meu tio Alberto
acabou descobrindo que esse tratamento está sendo pago por uma pessoa e não
pela rede pública. “Tem alguém pagando”. Mas quem? Por várias vezes tentei
descobrir quem era. Saber o porquê e também agradecer. Mas essa pessoa pediu
sigilo para a clínica.
O Daniel
parou mais de procurar, mas ainda recebo bilhetinhos e alguns deles em apoio ao
meu pai. Continuo trabalhando, pois com ele fora do trabalho ficaria muito
difícil a situação lá em casa e pior ainda se eu saísse, e minha já é
aposentada como professora.
Apesar de tanta tristeza ganhei um
momento de felicidade. Num dia quando estava indo embora da escola eu escutei o
Daniel discutindo com um dos antigos amigos e um trecho chamou a minha atenção.
__ Qual é
cara, virou o bom samaritano agora? Primeiro abandonou a gente e agora resolveu
pagar o tratamento do pai daquela horrorosa.
__ Cala
essa boca! Não se meta na minha vida.
É ele.
Por que nunca me contou? É, parece que realmente ele gosta de mim. Mas nós
somos tão diferentes, não tem como darmos certo. Caramba que confusão. Mas quem
sabe, um dia, ficamos juntos?!

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